Category: caminhada Lésbica

29 de Agosto – dia da visibilidade lésbica.

A GARRa acredita que a luta das mulheres lésbicas é uma luta de todas as mulheres! Somente através da criação de laços profundos, de admiração, de empatia, de compaixão, de AFETO entre mulheres que conseguiremos nos unir, nos organizar, estudar e lutar!

O mês de agosto de 2020 evidenciou que a lesbofobia ainda é forte dentro do movimento feminista e LGBT, mulheres lésbicas que estão ocupando as redes sociais foram atacadas por dizerem que amam mulheres, dois exemplos:

_ Uma mulher artista foi exposta e perdeu o emprego por falar algo tão simples e direto como: “uma mulher lésbica não femininilizada não é um homem trans”.

_Gisela dona de um bar no RJ, o Resiliência, sofreu ataques lesbofóbicos por dizer que ela queria um espaço onde as mulheres, e em especial as lésbicas, pudessem conversar!

Nenhuma dessas mulheres são fóbicas, espaços exclusivos não são sinônimo de espaços excludentes, ter orgulho de ser lésbica não é uma afronta a identidades diversas, elas são mulheres lésbicas que tem o direito de expressarem o amor que sentem e de estar com quem quiserem.

Esses ataques mostram que nós, feministas radicais, precisamos nos organizar e lutar pelos espaços exclusivos para mulheres, lutar pelos espaços políticos das lésbicas. A construção da caminhadas das lésbicas em BH é feita para fortalecer as lésbicas enquanto mulheres políticas, mas também para criar espaços de socialização que sejam seguros e criados pelas lésbicas.

Os movimentos tentam apagar a luta lésbica, chamando de “mulheres gays”, “mulheres LGBT”, “Identidade L”, “mulheres sáficas”, CHEGA DESSE APAGAMENTO!

A palavra para definir as mulheres que se relacionam com outras mulheres é Lésbica! Novamente temos que afirmar ano após ano: “Não somos ‘diversidade’, NÓS somos a RESISTÊNCIA!”

Fazemos um chamado às feministas radicais héterossexuais, o lugar de vocês também é na luta contra a lesbofobia e ajudando a construir esses espaços seguros para as companheiras.

Para nós da GARRa a frase que ainda é a mais representativa dos nosso sentimento pela luta da visibilidade lésbica sempre será: O amor entra as mulheres muda o mundo!

DIA INTERNACIONAL DE LUTA CONTRA HOMOFOBIA

No dia 17 de maio de 1990 a Assembléia Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da CID (Classificação Internacional de Doenças), formalizando assim, o que sempre foi sabido, homossexualidade não é doença.

Nascia o Dia Internacional contra a Homofobia.

Violência essa que atinge de forma bárbara todas as lésbicas, a exemplo do estupro corretivo, do apagamento dos símbolos lésbicos, da negação da participação das lésbicas na luta contra todo tipo de opressão contra mulheres.

A existência lésbica foi e sempre será sinônimo de resistência, considerando que as mulheres que amam exclusivamente outras mulheres rompem com a norma mais primitiva do patriarcado, as relações centradas no falo.

Portanto, celebramos não apenas pela homossexualidade ter deixado de constar na lista de CID’s, mas principalmente por todas que vieram antes de nós e com garra, sangue e fôlego fizeram com que essa marca deixasse de queimar em nossa pele.

“Antes que qualquer tipo de movimento feminista existisse, ou pudesse existir, lésbicas existiam: mulheres que amam mulheres, que se recusam a cumprir com as regras do comportamento imposto às mulheres, que se recusam a se definirem em relação aos homens. Essas mulheres, nossas antepassadas, milhões cujos nomes não sabemos, foram torturadas e queimadas como bruxas; difamadas em tratados religiosos e, posteriormente, “científicos”; retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, alheias à moral, destrutivas e decadentes. Durante muito tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.” Adrienne Rich

Caminhadas Lésbicas e a Fúria que não nos permite calar!

Primeiro, um pouco da história

Em Belo Horizonte a Associação Lésbica de Minas – ALEM, foi a coletiva responsável em 1998 por organizar a primeira I Parada do Orgulho LGBT em Minas Gerais.

Na Parada Gay as lésbicas tiveram por muitos anos um trio elétrico, depois passaram a marchar no chão, como a comissão de frente, com a intenção de chamar as mulheres a caminharem juntas.

No ano de 2005, percebendo a necessidade de dar voz, visibilidade e espaço para as pautas lésbicas, que acabavam sendo abafadas pelas demais, que dominavam as ruas e as capas de jornais, a ALEM, após uma reunião de planejamento anual, decidiu por entregar a organização da Parada Gay para o CELLOS/MG e a se dedicar exclusivamente à construção da 1ª Caminhada Lésbica que aconteceu em um sábado de julho de 2005, um dia antes da Parada Gay de BH.

De 2005 (1ª) a 2009 (5ª) a Caminhada Lésbica de Belo Horizonte se chamava Caminhada das Lésbicas e Simpatizantes de BH, e aconteceram no sábado anterior a Parada Gay, no mês de julho.

V Caminhada Lesbica

Em 2010 (6ª) passou a se chamar Caminhada das Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes de BH, ainda ocorrendo no sábado a tarde anterior a Parada Gay, em julho.

Em 2011 (7º), a Caminhada passou a acontecer no mês de agosto, uma forma de se tornar totalmente independente da Parada Gay e assim fortalecer o mês que dos Orgulho (19/08) e Visibilidade (29/08) Lésbica, tendo ocorrido na tarde de 27 de agosto, passando então a se chamar Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de BH.

Em 2011, com o encerramento das atividades da ALEM, a 11ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH foi organizada por coletivos feministas, LGBT e mulheres independentes que decidiram, de maneira corajosa, não deixar morrer um ato tão importante.

Em 30 de agosto de 2019, a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH tomou as ruas de BH.

Segundo, a fúria

O breve resumo histórico feito desses quase 16 anos de luta, coragem, ousadia e negação de ficar nas sombras, que levou para as ruas mulheres que sempre defenderam sua independência para falarem por si, para exigirem e conquistarem respeito e visibilidade teve a intenção de declarar que estamos furiosas.

No “Verão Radical”, acampamento de verão organizado pela GARRa feminista esse mês de Janeiro, entre os dias 17 a 19, tivemos um painel para discutir a importância dos fortalecimento das Caminhadas Lésbicas do Brasil. Da discussão que se seguiu ficou cada dia mais evidente que as mulheres lésbicas não são nada na sociedade, as lésbicas são silenciadas constantemente, acusadas de transfobia, de bifobia e até mesmo de heterofobia por qualquer coisa que digam e não agrade, por todas as vezes que exigem serem ouvidas, vistas, respeitadas, cada vez que uma lésbica impõe um limite, ele é visto como agressivo, violento e fóbico!!!!

Em todo o mundo muitas Caminhadas, que sempre foram referência, estão perdendo sua identidade para agregar pautas que ignoram as vozes das lésbicas, que negam a sexualidade, a identidade política e social dessas mulheres.

Ver a história da Caminhada de BH, mesmo que resumida, deixa evidente a capacidade de mudança, diálogo, reconhecimento da importância de todas as mulheres que desejam somar, foram tantos temas, foram tantas cores, tantas canções, tantos gritos, tantas reuniões e meses dedicados ao Orgulho e a Visibilidade Lésbica, que acusar uma organização horizontal, independente e múltipla de ser perigosa e fóbica, é demonstrar o descaso com a história, o sangue, a vida e a voz das que foram expulsas de casa, mortas, estupradas, espancadas por amarem e decidirem priorizar suas vidas para outras mulheres.

Espaços que deveriam ser seguros, pois dizem ser para mulheres, além de calarem os pensamentos diversos, propõem boicotes a eventos e Caminhadas Lésbicas, enquanto alegam que o “seu protagonismo está na força da mulher sapatona” se negam ao diálogo, se negam a somar, preferem expulsões e ataques, usando da censura para manter o véu da “desconstrução” que não aceita diferenças, preferem marchar outras “caminhadas” a somar com a caminhada lésbica.

Esses locais usam da carência de atividades voltadas exclusivamente para mulheres, se nomeiam intolerantes a qualquer tipo de preconceito, mas impõem uma política de silêncio, perseguição e medo para aquelas que defendem que gênero é opressão, que a sexualidade está relacionada ao sexo e que lésbicas são mulheres que se relacionam afetivo/sexualmente exclusivamente com outras mulheres.

Sapatão se tornou uma palavra da moda, palavra essa que foi por anos um xingamento vulgar usado por aqueles que desejavam desmerecer as relações lésbicas, por isso, para tirar esse poder destruidor dessa palavra, as lésbicas a ressignificaram e a tornaram parte dos seus símbolos, entretanto, agora ela é usada como passe livre para fingir uma inclusão que exclui, virando quase um deboche com aquelas que têm sido colocadas no papel de opressoras apenas por não se submeterem a desonestidade agressiva dos que confundem (ou fingem confundir) gênero com sexo e têm tentado fazer das Caminhadas um palco para suas vaidades e fetiches, seja através de fofocas, ameaças veladas, negativa de diálogo, acusações sem provas ou cartas abertas repletas de rancor e sem nenhuma responsabilidade com as conseqüências dela.

Por isso estamos furiosas, porque nossa história não nos deixa mentir que SEMPRE tivemos como foco a libertação das mulheres, que SEMPRE estivemos abertas ao diálogo, que SEMPRE procuramos evoluir, mas é claro, sem perder a razão que colocou nas ruas a 1ª e a 15ª Caminhadas, que são o Orgulho e a Visibilidade das Mulheres Lésbicas.

Desta forma propomos que as mulheres se organizem, que estudem, que resgatem suas memórias e deixem de sentir culpa por serem quem são, como bem disse Audre Lorde “seu silêncio não o protegerá”, pelo contrário, ele dará a força necessária para que as pautas de ódio nos apaguem, nos torne ainda mais vulneráveis e que a nossa diversidade seja tratada como criminosa.

Há várias coletivas, há vários blogs sérios, há páginas e feministas dispostas a fazer com que a união entre mulheres, enquanto classe, seja uma realidade capaz de fazer a revolução que temos buscado, a revolução que fará com que a opressão do gênero não mais nos acorrente, permitindo com que sejamos livres, sejamos enfim humanizadas, sem que depilação, submissão, violência doméstica, maquiagem, salto alto e feminilidade sejam sinônimo de mulher.

Sejamos as donas dos nossos símbolos, sejamos aliança, união e resgate do amor entre mulheres que tem nos sendo usurpado pela falácia da rivalidade feminina, as Caminhadas Lésbicas são nossos espaços de luta, por isso devemos fortalecê-las, não apenas no dia em que irão sair nas ruas, mas em todos os dias do ano!

A luta lésbica é a luta do feminismo!

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A necessidade de se posicionar e afirmar em uma sociedade patriarcal, misógina e falocêntrica é parte da agenda feminista desde que as primeiras mulheres se negaram a cumprir o papel determinado para elas em razão do sexo com o qual nasceram, o feminino.

Para uma lésbica, a necessidade de ser posicionar e afirmar ganha um peso maior, porque além de terem nascido no sexo que é oprimido desde o primeiro choro, elas rompem com o ideal heteronormativo das relações construídas em torno da figura masculina.

As lésbicas vão de encontro com a estrutura que determina que o destino biológico das mulheres é nascer, ser filha, em seguida esposa, mãe e cuidadora, porque as mulheres que amam/desejam outras mulheres não pautam seus afetos de acordo com essa determinação limitadora.

Tanto que a perseguição às lésbicas é documentada desde os primeiros registros históricos, a exemplo das poesias de Safo que foram queimadas pelos monges copistas em 1073 por serem consideradas “obscenas”.

Em 1969, A escritora e teórica Betty Friedan, em um discurso para a National Organization for Women – Organização Nacional para as mulheres (NOW), a qual fundou, chamou as integrantes lésbicas da organização de Lavander Menace – Ameaça Lavanda, afirmando que elas manchavam a reputação do grupo, afastavam outras mulheres e desviavam a atenção de pautas mais importantes na luta pela igualdade.

Com essa situação, as feministas lésbicas decidiram fundar seus próprios grupos, para provar a importância de suas lutas e transformar o constrangimento em orgulho.

Dentre os grupos que nasceram desse rompimento está o que se denominou de Lavander Menace, que em 1970 interrompeu o Second Congress to Unite Women (organizado pelo NOW) apagando as luzes do local, tomando os microfones e distribuindo o manifesto “The Women Identified Women” que é considerado um marco no feminismo radical e o início do feminismo lésbico, ao afirmar, dentre outras coisas, que as lésbicas estavam na vanguarda da luta pela nossa libertação, tendo em vista que sua identificação com outras mulheres desafiava as definições de identidade feminina em termos de parceiros sexuais masculinos.

Em 1975, Adrienne Rich, escreveu

 “Antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas. Mulheres que amavam outras mulheres, que recusavam o comportamento esperado delas, que recusavam definir-se em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhares cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, caluniadas em escritos religiosos, e mais tarde “científicos”,  retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas, decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.”

Ser lésbica é mais que ser uma mulher que ama/deseja outras mulheres, é também priorizar todas nós e por esta razão ser alvo das mais levianas acusações, das mais cruéis perseguições, porque o instinto de uma mulher lésbica é defender, cuidar, lutar, se orgulhar e levantar as bandeiras de proteção à outras mulheres, essa atitude fere com tudo que o patriarcado espera de nós em sociedade.

Por isso o ataque, a censura, as mentiras e manipulações sempre tentam primeiro derrubar os grupos que priorizam mulheres, que colocam nas ruas Caminhadas Lésbicas e eventos exclusivamente para nós, porque priorizar meninas e mulheres é dizer não ao que o patriarcado impõe, é ir contra uma estrutura que vulgariza, desumaniza, estupra e violenta nossos corpos, pensamentos, desejos, sonhos e conquistas.

O Grupo Lésbico-Feminista foi fundado em São Paulo no ano de 1979, por mulheres que primeiro integraram o Grupo Somos de Afirmação Homossexual, que ao perceberem que as pautas lésbicas eram sempre invisibilizadas diante as pautas gays decidiram se fortalecer em uma coletiva própria. As que restaram desse grupo, que se desfez em meados de 1981, lançaram a cartilha ChanaComChana para arrecadar fundos, tendo sido expulsas do Ferros Bar que proibiu a sua venda, o que culminou no levante que ocorreu em 19/08/1983, data que desde então marca o Dia do Orgulho Lésbico.

O dia 29 de agosto, dia da Visibilidade Lésbica, foi proposto em 1996, no SENALE (hoje SENALESBI), com a intenção de registrar a existência lésbica, como também a necessidade de que o debate de lésbicas para lésbicas, da mesma forma a voz das lésbicas na sociedade civil fosse pontuada como fundamental para que mulheres desde sempre marginalizadas não fossem apagadas da história.

Por isso a GARRa FEMINISTA, fundada em Belo Horizonte, no ano de 2014, desde o seu nascimento tem como um dos seus principais objetivos não deixar que o Orgulho e a Visibilidade Lésbica sejam tratadas como pautas menores, uma vez que como Feministas Radicais o nosso foco é também a proteção, cuidado, segurança e educação das mulheres, para que possam entender sua importância na sociedade, tanto coletiva quanto individualmente.

Apesar de todos os ataques sofridos ao longo de 5 anos de estrada, é com força, determinação e desejo de libertar todas das opressões sofridas, que a GARRa, junto a outros coletivos, colocará nas ruas a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de Belo Horizonte, no dia 30/08/2019, porque sabemos que não há nada mais forte que uma mulher livre para amar, caminhar, falar, se posicionar e lutar.

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