Author: Fabíola Ladeira

O debate do aborto no Brasil: a organização religiosa e a desmobilização feminista.

A pauta do aborto legal, gratuito e seguro no Brasil pode ser interpretada como uma pauta que somente é debatida quando tem algum caso emblemático acontecendo, do contrário o assunto é esquecido por grande parte da população e dos movimentos sociais, mas nunca é esquecida pelos grupos religiosos organizados. Essa é uma das certezas que tenho quando escrevo esse texto: a pauta do aborto nunca deixou de ser central para grupos fundamentalista religiosos, e infelizmente já deixou de ser central para o movimento feminista brasileiro. 

O caso que trouxe esse assunto de volta ao debate já deve ser conhecido por todos, uma garota de apenas 10 anos, foi estuprada pelo seu tio e engravidou. Algo terrivelmente comum no Brasil , sendo que em 2018 cerca de 35 mil meninas haviam sido estupradas, todas com menos de 13 anos, o que representa 53,6% do total de casos registrados do ano, lembrando que nem todos os casos chegam a ser registrados! E desse terrível número, retiramos outro: 21.172 meninas que ficaram grávidas de seus estuprados e não conseguiram ter acesso ao aborto legal. Meninas de menos de 14 anos que tiveram filhos de seus estupradores, e que estarão fadadas ao ciclo de pobreza e violência que a maternidade na adolescência causa. A diferença que ocorreu entre essas milhares de meninas esquecidas pelo governo e a menina de 10 anos, é que dessa vez houve uma mobilização feminista radical organizada para impedir que ela fosse mais uma dessas milhares. A coletiva feminista radical Sangra, que atua na cidade de São Paulo, rapidamente chamou para a mobilização virtual, através de um abaixo-assinado e de uma hashtag no twitter #gravidesaos10mata, para colocar em evidência o horror causado pela violência masculina contra uma de nós. Graças à essa ação acertada da Sangra, e a mobilização posterior das feministas radicais na rede, que mantiveram o debate rolando, e chamando cada vez mais pessoas, o caso ganhou visibilidade para que a menina tivesse acesso ao aborto que lhe é de direito. E aqui entramos em outro capítulo da pauta pelo aborto no país: a organização religiosa contra o aborto.

imagem feita por Coletiva Sangra

Os atos dos grupos religiosos contra o aborto:

Religiosos ligados ao governo se mobilizaram para impedir que ocorresse a interrupção, e eles agiram de diversas maneiras, indo até a casa da família, assediando as pessoas, assediando a criança, atacando os médicos responsáveis pelo procedimento, e tentando invadir o hospital. Engana-se quem acha que isso só aconteceu dessa vez, há muitos e muitos casos de ações parecidas ao longo dos anos. Porque isso são ações coordenadas e organizadas pelos grupos religiosos por anos. Ano passado o Tradição, Família e Propriedade (TFP) grupo de extrema direita, montou uma barraca em frente o hospital Pérola Byington para assediar mulheres, inclusive agredindo algumas.  Esse tipo de ação foi coordenada com grupos estrangeiros, copiando a mesma estratégia dos EUA . Houve reação de feministas brasileiras que montaram uma barraca para impedir que o grupo político-religioso atacassem mais pessoas. Em 2009 uma menina de apenas 9 anos, estuprada por seu padrasto, engravidou de gêmeos, houve o mesmo modus-operandi dos religiosos, com ataques e tentativas impedir o aborto de ocorrer. Em 2007 os grupos religiosos como CNBB e os evangélicos pentecostais já estavam organizados contra a pauta do aborto durante a vinda do papa ao país, e fizeram um protesto contra o então ministro da saúde do governo José Gomes Temporão, por ele ter se manifestado a favor de um plebiscito sobre o aborto legal. Em 2010 durante as eleições houve uma movimentação desses grupos religiosos contra os candidatos que eles julgavam ser pró-aborto. Em 2011 o STF fez o julgamento sobre a legalização do aborto em casos de anencefalia (ADPF 54), e novamente os grupos religiosos organizados fizeram vigílias na frente do STF. Esses grupos tiveram anos para se organizar e criar estratégias de atuação, mas, essas ações mais “abertas”, no sentido de serem mais visíveis e publicizadas não é a principal estratégia deles. A maior tática desses grupos tem sido a ocupação dos espaços políticos para barrar o aborto no Brasil em todas as instâncias. 

A estratégia religiosa.

    A frente parlamentar evangélica é a maior força política dos grupos religiosos de direita no país. Criada em 2003, ao longo dos anos foi se especializando em ocupar cargos estratégicos e barrar qualquer projeto de lei que favorecessem mulheres, a luta das pessoas homossexuais, e ideias progressistas. Em 2011 a bancada evangélica começa a mostrar a sua força, impedindo a distribuição da  cartilha contra homofobia, e que os políticos de direita chamaram de “kit gay”. Ocupando cargos dentro da comissão de direitos humanos, que foram obtidos por alianças e manobras políticas, em 2013 Marco Feliciano, evangélico, autor de falas abertamente homofóbicas e racistas, e acusado de estupro, ocupa a presidência da comissão, que até então era do PT. Além de Marco Feliciano começamos também a ouvir nomes que antes eram desconhecidos, como Eduardo Cunha, Magno Malta e João Campos. Todos esses políticos atuaram durante anos, na surdina, para barrar nossos direitos. Foi também em 2013 que o Estatuto do Nascituro (um PL de 2007) foi colocado para análise. O estatuto veio com a intenção de impedir as pesquisas com células tronco e definir que a vida começa na concepção, proibindo assim qualquer tipo de aborto no país. Além desses absurdos o estatuto ainda previa que em caso de estupro, quando o violentador fosse identificado ele poderia ser colocado na certidão de nascimento da criança e seria obrigatório o pagamento de pensão. O projeto foi estrategicamente engavetado, e é usado como chantagem sempre que a bancada evangélica pretende mostrar a sua força no controle das nossas vidas. 

O poder dessa frente evangélica fez com que a Portaria 415 fosse abolida, portaria essa que iria regulamentar o procedimento do aborto legal no SUS já previstos em lei. Obrigando os hospitais que fazem o aborto legal, a efetivamente realizá-los e impedindo que eles tivessem a escolha de não realizar o procedimento, como fez o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), nesse recente caso. Eduardo Cunha e Magno Malta orquestraram com a bancada evangélica para tirar essa portaria, e assim até hoje no país, mesmo que o hospital esteja na lista de locais que fazem aborto, eles podem se recusar a fazerem os procedimentos, pois não há nenhuma tipo de regulamentação em nível nacional. Por isso, a menina de 10 anos teve de passar por uma viagem do Espírito Santo até Recife. 

Outro capítulo da ameaça evangélica às mulheres e crianças é a ocupação dos conselhos tutelares. Os conselhos tutelares são órgãos responsáveis na proteção da criança e do adolescente, e o interesse dos evangélicos e católicos é conseguir controlar as pautas, impedindo que educação sexual sejam implementadas em escolas, fazendo o que eles chama de “combate a ideologia de gênero” ( a direita tem como definição por ideologia de gênero, qualquer pauta feminista, para eles a única pauta não ideológica sobre gênero é a reacionária), e mais recentemente,  agem ativamente para impedir que meninas estupradas tenham acesso ao aborto, e retirando da mãe, a guarda da filha por praticar uma religião que os evangélicos e católicos tanto odeiam.  Estar nesses espaços institucionais chave é uma estratégia dos religiosos, e assim eles vão dominando todas as instâncias (municipais, estaduais e nacional) dos poderes.  

Precisamos colocar aqui que, uma das figuras centrais do recente ataque religioso à uma crianças de 10 anos, Sara Giromini, não é de longe uma figura relevante ou mobilizadora nessa estratégia, ela é apenas uma bucha de canhão para gerar um ultraje e movimentar as redes sociais. Quem realmente tem poder nesse meio são juristas, advogados e pessoas que são influenciadas e financiadas por grupos internacionais contra o aborto, e estão aumentando a sua atuação na América Latina. O fato é que no governo Bolsonaro nunca se teve tão difícil o combate ao abuso infantil e o acesso ao aborto, e sites como ‘woman help woman’ e o ‘woman on waves’ diminuíram as suas ações no país. 

A desmobilização feminista

    Se na Argentina, Colômbia, Uruguai e Nicarágua vemos as pautas pelo aborto forte e no centro da luta das organizações feministas, aqui no Brasil a pauta está à míngua, fora em momentos reativos, como 2014 nos atos pela Jandira, mulher morta em decorrência de um aborto ilegal, e em 2018 onde os atos nacionais foram influenciados pelos levantes argentinos. 

Mobilização argentina pela legalização do aborto.

    Algumas organizações de esquerda brasileira tentam no STF a descriminalização do aborto. Há uma diferença entre descriminalizar e legalizar, o primeiro, se consegue através de uma decisão da justiça, e significa que se uma mulher é pega fazendo aborto não será presa, mas não quer dizer que o SUS terá de fornecer o aborto amplo, gratuito e seguro. Já a legalização tem de vir por vias legislativas, e garantiria o amplo acesso do aborto legal através do SUS, pelo menos é isso que todas nós queremos. A tentativa de conseguir a descriminalização pelo STF seria uma “via rápida” para um problema de saúde pública, mas assim como a via judicial não resolveu nos EUA, aqui também não se resolverá, pois se o aborto for descriminalizado no país, no dia seguinte a bancada evangélica irá desengavetar o estatuto do nascituro e irá aprovar ele, tanto é que no senado não há nenhuma senadora que apoia a descriminalização do aborto, mas são a favor de restringir o acesso ao aborto legal, nos casos já previstos por lei .  

    Acreditamos que o caminho para o Brasil seja como o da Argentina, que trilhou uma estratégia de anos, fazendo pequenos grupos em cidades, as campanhas, como elas chamam, fazendo ações coordenadas nacionalmente, e muito trabalho de base. E quando as campanhas conseguiram criar um momento de força, elas mostraram que são muitas e que, há sim uma disputa pela pauta, e que os governantes irão ter de fazer o debate ampliadamente. Elas podem não ter conseguido ainda o aborto legal, mas mostram que tem organização e estratégia, coisa que falta aqui no Brasil. Está na hora de nós, feministas independentes, sairmos das sombras de organizações que se dizem feministas, mas não estão mais pautando as mulheres, e começarmos nós a fazer essas estratégias de mobilizações em massa. Grupos tradicionais tem sim valor histórico, obviamente, mas quando eles burocratizam as pautas, não mais são mobilizadores ou aglutinadores, está na hora de tentarmos novos rumos. Nesse ponto acreditamos que o feminismo radical tem potencial para tomar a dianteira na luta pela legalização do aborto, e construir campos de atuação que possam avançar a luta!

Clube de Leitura radical 1º semestre de 2020

Vamos falar um pouquinho sobre a autora escolhida para o lançamento do Clube de Leitura Radica, Sheila Jeffreys e o livro Beleza e Misoginia.

Jeffreys é uma feminista radical inglesa, que vive na Austrália, nascida em 1948, começou sua atuação política e feminista na década de 1970. Fez parte de um grupo feminista socialista e por apontar que homens são os culpados pela opressão das mulheres, foi expulsa.
Criticaram seu “ódio aos homens”, porque para Sheila, é impossível se aliar aos homens e avançar a luta feminista.

Sheila é lésbica e desde 1973 escreve sobre o lesbianismo político, sobre como é contraditório lutar por mulheres e dedicar energia e afetividade ao inimigo. Escreve sobre a perspectiva lésbica revolucionária em muitos dos seus trabalhos.

Em seu livro Beleza e Misoginia, o primeiro título escolhido para o Clube de Leitura Radical, aborda a objetificação dos corpos femininos e critica ferozmente os padrões de beleza e papéis de gênero.
Aponta e explica porque as práticas de beleza, como a maquiagem, cirurgias plásticas e outros procedimentos invasivos, são ferramentas da dominação masculina.

Outros livros dela:

Os debates sobre sexualidade (1987);
Anticlimax: uma perpectiva feminista sobre a revolução sexual (1990);
A heresia lésbica, uma perpectiva feminista sobre a revolução sexual lésbica (1993);
Gênero Dói: uma análise feminista das políticas do transgenerismo (2014); dentre outros


Estamos com um evento novo para o ano de 2020, o “CLUBE DE LEITURA RADICAL”!📚📖

– Faremos de duas a três leituras por ano, uma sempre será de escritora feminista radical e a(s) outra(s) de uma escritora feminista que poderá ser radical ou não!

– Faremos discussões online (um grupo de zap exclusivamente para conversar sobre as leituras), e um encontro para o debate final e confraternização!🎶

– A primeira leitura será “Beleza e Misoginia” da Sheila Jeffreys, que vamos disponibilizar em pdf. traduzido em português.

– O encontro para a discussão do livro, e a nossa confraternização, será dia 6 de Junho, e ocorrerá aqui em Belo Horizonte!

– Serão 30 vagas. Iremos priorizar inicialmente as mulheres de BH e região, mas as inscrições são abertas para todos os estados!

Para participar se inscreva no formulário:
https://forms.gle/EaJemnF6eVwx1fAMA

O Clube de Leitura Radical é exclusivamente para mulheres!🙋‍♀️🙋‍♀️

A programação do Verão Radical 2020 está no ar!

O evento está imperdível, temos 15 vagas disponíveis, a inscrição custa R$72 reais que serão para cobrir os custos de alimentação (café da manhã, almoço, lanche e janta), estadia e transporte (ida e volta do centro de BH até o sítio) durante os 3 dias.
Nós da GARRa feminista não iremos ter nenhum lucro com esse valor, estamos cobrando apenas o que iremos gastar com o acampamento.

O acampamento é para mulheres maiores de 18 anos, e por ser em um local afastado do centro urbano não iremos aceitar crianças, pois não podemos garantir 100% a segurança delas em um local afastado de hospitais.

Segue a nossa programação!

Programação

Sexta feira – 17 de Janeiro

18 horas – acolhimento

20 horas – apresentação da GARRa e do acampamento

21 horas – Confraternização

Sábado  – 18 de Janeiro

Manhã –

8 horas – café da manhã

9:15 horas – Origens do Patriarcado & História do feminismo radical.

11 horas – Almoço

14 horas – Oficina segurança Digital

17 horas – A importância do feminismo lésbico radical e do fortalecimento das Caminhadas lésbicas do país/ Lesbianismo político – o real debate

18 horas-  documentário Angry Wimmin e debate do filme.

20 horas – Janta/ confraternização

Domingo- 19 de Janeiro

Manhã –

8 horas- café da manhã

9:15 horas – Conjuntura brasileira e o feminismo radical no Brasil.

11 horas –  almoço

14 horas – rodas de conversa/palestras – escolha das participantes por enquete.

17 horas – fechamento/despedida

A inscrição pode ser feita pelo formulário: https://forms.gle/TDjHsPNSQcWJA2nb7

As vagas são limitadas!!!
Recadinhos – Iremos vender bons drinks durante as nossas confraternização e teremos uma lojinha para vender alguns produtos da GARRa, todo o dinheiro é para manter a coletiva funcionando e financiando as nossas ações! 😉
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Verão Radical – Acampamento de Verão feminista radical

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Vem aí o Acampamento de Verão da GARRa feminista!

Serão 3 dias de programação em um sítio na região metropolitana de Belo Horizonte!
Falaremos sobre feminismo radical em discussões com mais aprofundamento, iremos oferecer também oficinas e cine debate, além de confraternizações para nos conhecermos melhor! Vamos aproveitar o verão ao lado de feministas radicais, conhecendo mulheres, estudando juntas o movimento feminista e curtindo as férias!

O acampamento irá ocorrer nos dias 17, 18 e 19 de Janeiro, sendo que todas as mulheres inscritas irão dormir no local. Será disponibilizado alimentação (café da manhã, almoço, lanche e janta), além da acomodação e do transporte do Centro de Belo Horizonte até o sítio localizado na cidade de Rio Acima.
O sítio é uma casa ampla que possui quartos com beliches, camas de casal e solteiro disponíveis, há também a opção para quem quiser levar barraca e acampar, a casa tem 4 banheiros disponíveis para uso coletivo, cozinha e ambientes para que todas tenham conforto.

A inscrição para o Acampamento tem um custo de R$72 reais, onde esse valor é para cobrir a alimentação completa, estadia e transporte (ida e volta do centro de BH até o sítio) durante os 3 dias. Nós da GARRa feminista não iremos ter nenhum lucro com esse valor, estamos cobrando apenas o que iremos gastar com o acampamento.

O acampamento é para mulheres maiores de 18 anos, e por ser em um local afastado do centro urbano não iremos aceitar crianças, pois não podemos garantir 100% a segurança delas em um local afastado de hospitais.

A inscrição pode ser feita pelo formulário: https://forms.gle/TDjHsPNSQcWJA2nb7

As vagas são limitadas!!!
Recadinhos – Iremos vender bons drinks durante as nossas confraternização e teremos uma lojinha para vender alguns produtos da GARRa, todo o dinheiro é para manter a coletiva funcionando e financiando as nossas ações! 😉
Programação completa em breve, fiquem ligadas!

Estudar, Organizar, Lutar!

8 de março – dia das mulheres trabalhadoras e a luta do feminismo radical.

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“Mulheres Unidas” – poster do coletivo See Red

Hoje é comemorado o dia de luta das mulheres trabalhadoras, um dia para se lembrar de todas que construíram a luta feminista e contribuíram para a melhora dos direitos trabalhistas, mas também um dia para ir às ruas e continuar a luta que essas mulheres começaram. Ir para as ruas em atos é mostrar que, durante todo o ano, estaremos presentes para barrar e resistir aos ataques da direita, que atingem as mulheres seja em sua aposentadoria, seja pela intensificação da divisão sexual do trabalho. A divisão sexual do trabalho separa e estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres, intensificando a diferença social nos postos de trabalho (trabalho “de mulher e de homem”) e dando valores monetários e sociais maiores para o trabalho dito masculino,  precarizando, assim, os postos de trabalhos ocupados por mulheres.

Estamos há dois meses de um governo de direita que se utiliza de uma batalha moral identitária para atacar e desmoralizar a esquerda,  e, ao mesmo tempo, apresenta planos de precarização do trabalho, que irão atingir com mais força as mulheres trabalhadoras. As mulheres são o maior contingente de desempregados no país, motivo pelo qual elas procuram trabalhos informais e perigosos, sejam aliciadas para a prostituição e sofram diversos tipos de violência e estigmatização. Além disso, as mulheres são as responsáveis pelo cuidado materno e do lar, tendo uma maior carga de trabalho e stress mental que os homens.  Para combater esse governo, precisamos estar organizadas e preparadas para enfrentar cada ataque direcionado a nós, precisamos entender como a divisão sexual do trabalho se evidencia nessa conjuntura.

O feminismo radical nasceu dentro da esquerda no final da década de 60 e não há como fazê-lo de outra maneira, a militância tem de ser feita pela esquerda e com todas as dificuldades que apresenta, não há atalhos na luta, é através da formação de base e da prática feminista que conseguiremos alcançar nossos objetivos.  A prática é o critério da verdade, é atuando no dia a dia que saberemos quais são as lutas e os anseios das mulheres brasileiras e conseguiremos definir com clareza nossas batalhas e estratégias. As feministas radicais do Brasil precisam se organizar e fazer a luta coletiva e, colocar as mulheres no centro da luta, é fundamental para o avanço da esquerda no país.

Neste 8 de março de 2019 a GARRa sai mais uma vez às ruas em marcha, para pedir justiça pelas vítimas de Brumadinho, atingidas pelas mãos da criminosa Vale e manifestar-se contra a reforma da previdência do governo Bolsonaro que só irá ampliar as desigualdades entre homens e mulheres na sociedade brasileira.  Lutamos também pela legalização do aborto e pela sua implementação de forma gratuita e segura em todo o SUS. O aborto ilegal segue sendo uma das principais causas de morte materna, uma evidência do controle patriarcal dos nossos corpos e a imposição da maternidade e da exploração da nossa capacidade reprodutiva.  Saímos em marcha para denunciar esse governo conservador e subserviente às pautas evangélicas, que declarou guerra às mulheres, querendo nos tomar o pouco que conquistamos!

Chamamos todas as feministas radicais do Brasil para juntarem-se conosco nessa luta, por um projeto feminista radical para todas as mulheres!

Marcha das Vadias: ato feminista ou carnaval queer?

À frente da Marcha, bandeira LGBT nas mãos de um homem. Não se vê, na imagem, bandeira feminista. Créditos da foto: Carla DC

A Marcha das Vadias é um movimento liberal, que defende sistemas de exploração do sexo feminino – como a prostituição e a pornografia – como trabalhos comuns ou até mesmo formas de “empoderamento”, sem um questionamento profundo da dominação dos homens sobre as mulheres na sociedade. Apesar deste caráter, a Macha ainda é uma manifestação que se propõe feminista e contra violências masculinas como assédio e estupro.

Em 2015, a Marcha teve o mesmo tema em todo o Brasil: a legalização do aborto, necessária para preservar a vida das mulheres brasileiras que abortam de maneira clandestina e acabam muitas vezes mortas, encarceradas ou traumatizadas. No entanto, um movimento que se fundamenta em argumentos do liberalismo político, como a Marcha das Vadias, e entende o feminismo não como o Movimento de Libertação da classe das Mulheres, mas como “direito a escolha” (individual) ou “empoderamento” (também individual), não consegue construir um discurso sobre aborto que caminhe para a nossa libertação. Para isso, seria necessário discutir maternidade forçada como trabalho forçado feminino e aborto num contexto maior de direitos reprodutivos necessários para libertação da classe reprodutiva, as mulheres, da dominação masculina que se realiza através de diversos mecanismos, sendo a proibição do aborto apenas um deles, junto com outros mecanismos de controle reprodutivo como a proibição ou restrição do acesso a contraceptivos (países como a Tailândia proíbem, enquanto países como os EUA restringem ao permitir que empresas contratem seguros-saúde que não cobrem contraceptivos, de acordo com a religião do empregador), a gravidez forçada, o aborto forçado, bem como outras violências e explorações, como trabalho doméstico não pago e compulsório, estupro, espancamento, violência psicológica e emocional, assédio sexual, prostituição, pornografia, e tantas outras.

Sabendo disto, a GARRa Feminista se propôs a panfletar uma perspectiva de esquerda, revolucionária, radical sobre o aborto durante a concentração da Marcha das Vadias de Belo Horizonte no dia 20 de junho. Alguns acontecimentos nos chamaram a atenção durante o tempo em que panfletamos.

Carnaval queer

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Como sempre, a Marcha tinha muitos, muitos homens presentes, muitos homens heterossexuais com suas companheiras, mas o que nos chamou a atenção, a princípio, foi a protagonização masculina nas danças e no batuque – que trazia marchinhas de carnaval (!), muitas vezes lesbofóbicas, no lugar de palavras de ordem feministas. Não havia nenhuma bandeira feminista, e a bandeira LGBT era o que roubava a cena, carregada com afinco por um homem de top e saia, com, o que nos pasmou, tinta vermelha entre as pernas. Na mesma marcha em que o cartaz ‘Homens também abortam’ apareceu, um homem gay rebolava até o chão com as marchinhas de carnaval tocando, fantasiado do que só podemos descrever, com muito desgosto, como ‘mulher e aborto clandestino’. Muito além da já misógina prática de usar da estética da nossa opressão (a feminilidade) como fantasia – o drag – este homem achou divertido se fantasiar de mulher morrendo. Um ato feminista pela legalização do aborto e pela vida das mulheres virou uma festinha à fantasia para os homens gays que celebravam “ser vadia”.

Homens não abortam. A proibição do aborto é uma opressão reservada a quem tem útero e vagina, que fazem parte da classe capaz de reproduzir e para a qual os direitos humanos mais básicos são negados: as mulheres. Considerar que homens abortam não significa apenas roubar nosso protagonismo no movimento feminista, mas também negar a opressão que sofremos enquanto mulheres – que tem base material, na exploração dos nossos corpos, dos nossos úteros. Somos forçadas a prosseguir com a gestação, abandonadas pelos pais de nossos filhos, levadas a fazer abortos clandestinos que culminam em sangramentos e hemorragias que podem levar à morte. E mesmo mulheres que não abortam sofrem violência: mulheres cujas tentativas de aborto falharam, mulheres forçadas pelos parceiros a manter a gravidez ou mesmo mulheres coagidas pela ideologia patriarcal, da religião ou da moral patriarcais, a enxergar como errado, como pecado ou imoral interromper uma gestação, correm risco de sofrer violência obstétrica durante o pré-natal e o parto. A maioria dessas questões não foram levantadas na Marcha, que parecia muito mais preparação para uma festa do que um protesto.

O sangue entre as pernas daquele rapaz é um deboche da condição feminina de segundo sexo, da negação de direitos e da invisibilidade de nossas demandas feministas. Falar de aborto é falar de mulher, e um homem carregando o sangue de um aborto entre as pernas é um desserviço político e um desrespeito a todas as mulheres e à causa feminista.

Marcha

Marcha

Mulheres invisíveis

Enquanto panfletávamos, presenciamos uma cena muito forte, bem ao lado de onde estavam as pessoas dançando ao som do batuque da Marcha, uma mulher, aparentemente moradora de rua, era empurrada contra uma árvore por um homem, também morador de rua. Ele a beijava a força, a tocava, enquanto ela tentava se desvencilhar, chorando muito. Tentamos intervir e o homem se tornou agressivo. Conseguimos afastar o homem dela, que foi se deitar longe dali. Foi apenas nessa hora que algumas companheiras se solidarizaram e ajudaram a afastar o homem, que ao perceber que éramos lésbicas, começou a querer nos agarrar e beijar. Ainda assim, se solidarizaram conosco (elas não estavam perto quando o homem assediava a moradora de rua), ao passo que as outras pessoas, que estavam perto quando o assédio ocorria, seguiam dançando as marchinhas e não vendo o que estava acontecendo. Conversamos um pouco com a mulher, que contou alguns detalhes de sua vida e vimos ali que ela estava numa situação extremamente vulnerável, sendo agredida por um homem que tinha conhecido no dia anterior, simplesmente por ter ido dançar junto das outras mulheres que faziam parte da Marcha das Vadias.

Depois de sermos forçadas a nos afastar com as ameaças do homem em questão, tentamos ficar de olho de longe no que acontecia. Enquanto isso, a Marcha seguiu seu caminho. Vimos essa mulher deitada, enquanto o homem a chutava e a balançava, fazendo carinho depois. Eram duas pessoas em situação de rua, extremamente vulneráveis, ambas negras, mas havia claramente ali a opressão masculina sobre aquela mulher.

Quando a Marcha das Vadias surgiu, era sobre o direito da mulher de vestir-se ou portar-se como quiser sem ser culpabilizada caso sofresse violência física, sexual, verbal ou psicológica. Achamos bastante sintomático que, ao lado do batuque dessa Marcha, uma mulher tenha sido agredida e que nada tenha sido feito. A fala desta mulher para o homem que a agrediu foi de quem tentava se justificar: “eu só estava dançando”. A Marcha das Vadias, apesar de defender os direitos dela na teoria, não a protegeu na prática.

Criticamos a falta de atenção e cuidado da organização da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Todo ano presenciamos situações de agressão misógina durante a realização deste evento, e desta vez não houve sequer envolvimento da organização do mesmo. Ficou claro que a Marcha não é um ambiente seguro para mulheres, que elas não estão protegidas, mesmo entre inúmeras feministas e homens que dizem apoiar o feminismo. Faltou olhar para o lado e se preocupar com as outras mulheres, faltou o entendimento de que o feminismo é uma luta coletiva, por todas as mulheres, inclusive as que moram na rua. Faltou uma crítica ao individualismo incorporada nas práticas de quem constrói aquele evento – tanto organização quanto público.

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Contra críticas, hostilidade

Presenciamos, também, uma mulher negra discutindo com uma das organizadoras da Marcha, branca, e ambas gritavam. Poucas pessoas pararam para tentar mediar a situação ou dialogar, mas percebemos ali que a companheira negra ressaltava o caráter racista e elitista da Marcha das Vadias. São questionamentos frequentemente levantados nos meios feministas: como a Marcha das Vadias é um movimento majoritariamente branco e classe média, com um discurso de apropriação e ressignificação de ofensas misóginas que não serve às mulheres em geral, mas principalmente às negras e pobres, grupos em situação social mais vulnerável. Em pouco tempo já ouvimos gritos de “cala a sua boca” de parte da mulher branca, tentando agressivamente silenciar as críticas. Essa mesma mulher disse à companheira negra que ela não precisava acompanhar a marcha, que se estava insatisfeita poderia retirar-se.

Esta é uma postura comum de feministas liberais (e fazemos essa análise de que era uma feminista liberal por que estava hostilizando uma mulher para defender um movimento feminista liberal, que é a Marcha das Vadias, de críticas) quando questionadas sobre seus métodos políticos e sobre sua ideologia e como os mesmos se relacionam com a população de mulheres negras e pobres. Vimos ali que as críticas dessas mulheres não eram bem-vindas, e mais que isso, que eram tratadas como ações contrárias ao movimento e, em vez de consideradas, eram rebatidas com hostilidade. Esta é a mesma hostilidade que nós, feministas radicais, especialmente dentre nós as que são negras ou lésbicas, recebemos ao criticar individualismo e liberalismo no movimento feminista, e nesse sentido, nos solidarizamos com a companheira.

Por fim, queremos deixar claro que, para nós, a “libertação sexual” proposta pela Marcha das Vadias não é libertação de modo algum, é apenas mais uma forma de dominação masculina sobre as mulheres e que não acreditamos na ressignificação da palavra “vadia” e seus sinônimos como método efetivo para a libertação das mulheres. Lutamos por um mundo em que as mulheres possam se relacionar livremente, porém com auto-estima, segurança e um real poder sobre seus corpos e mentes, sem, nunca, jamais, serem chamadas – ou sentirem-se – vadias.

GARRa Feminista.

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