SOBRE FEMINISMO E ENGANAÇÕES: A URGÊNCIA DO MOVIMENTO FEMINISTA DE DEMARCAR A DIFERENÇA ENTRE DETONAÇÃO E RESPONSABILIZAÇÃO

Não devemos reinvindicar para as relações entre mulheres a leviana “broderagem masculina”, em que os atos de uns são acobertados e ignorados pelos outros. Como revolucionárias, temos que caminhar para uma real mudança social.

Recentemente, algumas polêmicas envolvendo a ética, transparência e responsabilidade de algumas mulheres conhecidas no meio feminista (re)surgiram. 

Desde já, ressaltamos que a detonação, termo cunhado pela feminista Joe Freeman em “Trashing: o lado sombrio da sororidade”, não é a forma correta de realizarmos as mudanças que acreditamos serem fundamentais para a sociedade.

Defendemos a ideia de que apoiar uma mulher não implica em ignorar seus atos. Pelo contrário, devemos confiar em nossa capacidade crítica, perceber atitudes nocivas e apontá-las sempre que necessário.

Vale ressaltar que o registro do fato ocorrido com essa mulher e as reações de feministas diante dele estão sendo aqui debatidos em razão da extrema necessidade de conseguirmos avançar no debate proposto. É nossa responsabilidade, enquanto feministas radicais e, consequentemente, revolucionárias, encontrarmos estratégias para lidar de forma política e embasada com as mulheres que nos cercam, nos atingem e fazem parte do nosso cotidiano de luta; e que, porventura, cometam crimes, mentiras, enganações, abusos, violências e demais atos que tragam prejuízo, dor, traumas e temores a outras mulheres e ao movimento. Temos que estar atentas para não cairmos nas estratégias patriarcais da detonação de mulheres, assim como na “broderagem masculina”.

“Enquanto mulheres, nós temos que começar a formar o que Andrea Dworkin chamou de “inteligência moral” —  uma habilidade de construir nosso próprio sistema de valor e ética centrado nas mulheres” (May Mundt-Leach).

Buscamos a revolução e esta implica também em estabelecer qual é a forma feminista de realizar a responsabilização de todas pelos seus atos prejudiciais, na medida dos prejuízos causados. A ética feminista é imprescindível para nossa luta. E parece estar sendo cotidianamente ignorada por muitas. 

Os Fatos

Poderíamos escolher diversos fatos já ocorridos no meio feminista e que foram levianamente ignorados pela extrema dificuldade das mulheres em lidarem com as falhas de outras mulheres e agir em relação a elas, bem como de reconhecer as suas próprias. No momento, estamos nos referindo a uma produtora de conteúdo político que trazia em suas apresentações sempre a informação de que seria especialista e doutoranda em História da Cultura, na USP. Ela produz diversos conteúdos, como podcast, posts teóricos no Instagram e, recentemente, passou a produzir – e vender – diversos cursos relacionados a sua área acadêmica. 

Explicamos, novamente, o fato concreto está sendo usado para fomentar o debate coletivo sobre situações que enfrentamos, cotidianamente, nos meios feministas, esse não é um texto sobre individualidades e pessoalidades, mas sobre como, enquanto mulheres que acreditam em uma mudança social feita por mulheres, estamos agindo para fazer com ela aconteça sem ignorar nossas diferenças, limites e potencialidades.

Por razões diversas, inclusive as mais óbvias, como ela se apresentar como especialista e doutoranda, participar de fóruns, mesas, debates e vender cursos, algumas mulheres buscaram seu lattes na internet e outras pediram diretamente à ela, mas nenhuma conseguiu uma resposta. Como a produtora de conteúdo persistiu ignorando os pedidos feitos, dados para pix disponibilizados por ela em sua página foram usados para obter o nome completo e, a partir dele, investigou-se o lattes dela. Entretanto, não havia lattes e nem sequer seu registro no doutorado da USP.

Após nova tentativa de diálogo privado para esclarecer o ocorrido, ela respondeu com bloqueios e silêncio.

Até então a questão era, apesar de grave, simples: uma pessoa pública, ao que tudo indicava, havia mentido sobre sua formação acadêmica e, por essa razão, estava sendo cobrada a esclarecer essa situação.

Porém, o que era para ser simples, não foi. Ficamos surpresas ao nos deparar com vídeos e textos de outras feministas em defesa da produtora de conteúdo, inclusive criticando aquelas que estavam à procura de esclarecimentos. 

Essas defesas foram diversas e perpassaram entre as seguintes afirmações: a) cobrar responsabilidade de uma mulher que cometeu um suposto crime seria fofoca, b) exigir comprovações de informações acadêmicas e de trabalho dados por uma mulher seria policiamento e academicismo; e c) buscar o esclarecimento e a responsabilização dessa mulher seria antifeminista.

E assim, em uma reviravolta já antes vista no feminismo, a mulher que aparentemente mentia,  passou a ser vítima. 

A verdade é que esse fato não é isolado e tem se tornado um grande problema nos meios da militância feminista. Tem sido frequente o temor de mulheres em cobrar responsabilização de outras, bem como se responsabilizar quando falham com as que as cercam, assim também é o acobertamento em situações de abuso, mentiras, conflitos, violências e enganações diversas quando são mulheres que cometem, sendo permissivas com as agressoras e negligentes com as vítimas, em nome de uma falsa sororidade. 

Que fique registrado: o popularmente conhecido “passar pano” para erros (e crimes, diga-se de passagem) não é, definitivamente, feminismo. 

O feminismo e a Academia 

Dentre os argumentos utilizados para a defesa de todo o ocorrido, estava o de que “a compreensão e a divulgação do feminismo não requer diplomas ou títulos acadêmicos”. Veja, o problema não está no argumento em si. Argumento, inclusive, que defendemos veementemente. O feminismo é tema político e cotidiano. É uma luta social. Ele perpassa todas as camadas das nossas vidas e basta estar viva para poder entender e transmiti-lo. 

Há diversas mulheres feministas que fizeram e fazem a luta pela nossa emancipação e são pesquisadoras autônomas, estudiosas independentes e que ainda assim possuem uma história valorosa, independente de um diploma.

O problema levantado pelas críticas nunca foi o de que ela não seria especialista e doutoranda. O problema está em ela ter dito publicamente que era, quando não era. 

O feminismo não exige título. Perfeitamente. Mas então, por que inventar um? Por que se recusar a se apresentar como era, de fato? Qual o interesse e a necessidade que ela mesma enxergou, para inventar esses títulos? A quem isso beneficiaria?

Eram as respostas para essas, e outras indagações, que entendemos como sendo se responsabilizar por erros cometidos, o ato de esclarecer e reconhecer uma falha, na comunicação ou nas informações prestadas, é o que deveria ter sido feito, em respeito às que a acompanhavam, compravam seus cursos e confiavam em sua ética.

Não há detonação, destruição da reputação, fofoca, hostilidade horizontal, policiamento ou ataque ao esperar de uma figura pública, melhor, de uma mulher, que ela se retrate. 

Não defendemos exposições, linchamentos, ataques e violência entre mulheres, sabemos que em uma  sociedade patriarcal a reputação de uma mulher está sempre na berlinda, portanto, precisamos evitar que a responsabilização se torne culpabilização, mas diante de fatos que precisam ser resolvidos com integridade, temos a obrigação ética e moral de romper com o tradicional, mas sem ignorar que mulheres adultas são sim responsáveis por seus atos.

Responsabilização não é detonação

No caso citado, a mulher em questão não se responsabilizou por seus atos. Isso nos leva a refletir sobre a importância de reconhecer nossos erros e agir em prol de atenuar os danos por eles acarretados. Fazendo isso sem vitimismo, mas com seriedade.

Ademais, as mulheres que atentaram para esse ocorrido foram criticadas e acusadas de antifeministas. Assim, ocorrendo a tentativa de silenciar mulheres, usando-se erroneamente de prerrogativas feministas, sendo que o silenciamento de mulheres é uma prática patriarcal. Além disso, em casos como esse, se calar é permitir que más condutas sejam ignoradas e perpetuadas.

A quem interessa isso? Certamente não a nossa luta política. E também não àquelas que podem vir a ser enganadas por essas mulheres. Sabemos que estamos propondo um processo difícil de rompimento com mordaças e medo de confrontos políticos com nossas iguais, mas o nosso silêncio não tem fortalecido, de nenhuma maneira, a nossa luta coletiva.

“A raiva expressa e traduzida em uma ação a favor de nossos ideais e nosso futuro é um ato de esclarecimento que liberta e dá força, pois é nesse processo doloroso de tradução que identificamos quem são os nossos aliados com quem temos sérias diferenças e quem são nossos verdadeiros inimigos.” (Audre Lorde)

Feminismo não é sobre termos bonitos, como amizade política, sem a tentativa real de vivenciar, para si e para as outras, a amizade política, que como bem nos ensinou Margarita Pisano, é um processo que começa no encontro e na necessidade urgente de mudar os sinais da vida e da história, através da construção respeitosa da confiança.

Perguntamos: como realizar uma construção respeitosa de confiança se não podemos acreditar que, ao errar, aquela mulher irá se retratar? Como sermos amigas políticas se não podemos nos proteger agindo de forma coerente quando uma de nós erra, exigindo dela a responsabilização por seus atos?

O feminismo é uma luta política. E a luta se faz coletivamente, com estratégia, organização e ética. 

Esse feminismo esvaziado em sentido, que tem sido usado como termo guarda chuva para bordões do tipo “se seu feminismo não inclui (coloque aqui o que quiser)” não é a luta política séria, honesta e corajosa que vem sido travada por mulheres que concentram suas forças na real libertação das mulheres das opressões que nos limitam e destroem cotidianamente.

Difícil entender qual a lógica social essas defensoras pretendem construir. Um mundo em que mulheres não podem ser responsabilizadas? Assim sendo, se não existe a possibilidade de responsabilização, estaremos sempre à mercê da boa vontade de todas. E se algum dia não houver essa boa vontade? E se alguma, um dia, se aproveitar das outras? O que, sabemos, não é impossível. Afinal, reconhecemos que existe misoginia internalizada e hostilidade horizontal como parte da socialização das mulheres, assim sendo, há a possibilidade de que se criem rumores e rivalidade, portanto, temos consciência não serem as mulheres seres incapazes de ferir, abusar, violentar, enganar e prejudicar outras mulheres.

Não concordamos e não iremos compactuar com esse tipo de defesa, que traveste o individualismo liberal em suposto feminismo. 

Da necessidade de organização coletiva 

Não é de hoje que, enquanto coletiva organizada, mantemos sempre um cuidado quando se trata de figuras autônomas no meio feminista. Como já reiterado algumas vezes, feminismo é luta política e coletiva. Não se faz feminismo sozinha. Respeitamos as ativistas que escolhem o caminho solitário para viverem suas batalhas, mas esperamos delas que entendam a importância do pensamento e das ações coletivas para avançar.

Para nós, estar organizada implica em atuar sob um estatuto com normas e disposições específicas. Existe um projeto político e uma metodologia a ser seguida. As membras se obrigam a atuarem nesses limites e agem como representantes da organização. Isso implica, também, em uma maior possibilidade de responsabilização. Afinal, tem toda uma organização ali por trás. A responsabilização pode (e deve) ser interna – entre as próprias membras- e também externa (a organização perante a sociedade em geral). 

Ser uma figura autônoma significa que não existe nenhuma organização conjunta e nenhum sistema de controle. A pessoa pode simplesmente agir sem qualquer compromisso com a coletividade. Pode, inclusive, chamar de feminismo radical aquilo que não é feminismo radical (às vezes nem mesmo feminismo). 

E quando erram, qual suporte as vítimas recebem? Quem vai poder responsabilizar essa autônoma pelo mau feito? Aparentemente, ninguém! Considerando que, quem está “de fora”, ao alertar, buscar dialogar, esclarecer, resolver e compreender algo, é logo taxada de fofoqueira e antifeminista, fazendo com o que se aumentem as desconfianças e os rompimentos com as ações feministas.

E isso tudo não é apenas hipotético e teórico. São problemas que vemos acontecendo com uma absurda frequência. Seja por motivos de ego, de lucro financeiro, de alcançar uma suposta fama; pessoas agem em nome de um suposto feminismo que tem se mostrado inconsequente e totalmente irresponsável. E essa cultura de fingir que feminismo é sobre não poder exigir de nossas companheiras e aliadas uma conduta ética, apenas fortalece essas deturpações e absurdos que vemos acontecendo. 

“Quando falo de mudança não me refiro a uma simples troca de papéis ou a uma redução temporária das tensões, nem à habilidade de sorrir ou se sentir bem. Estou falando de uma alteração radical na base dos pressupostos sobre os quais nossas vidas são construídas.” (Audre Lorde)

Fazer parte de uma organização política não é algo que se faz “porque é legal”. Inclusive, é muito trabalhoso. É custoso, implica em lidar com pessoas, em ter que negociar, buscar consensos, buscar sínteses, fazer renúncias, recuar, repensar e se adequar. Entretanto, é o melhor caminho que conseguimos vislumbrar para a revolução feminista que almejamos alcançar.

Apenas organizadas seremos capazes de encontrar uma solução feminista para a responsabilização sem detonação.

E é por isso, que seguimos com nosso lema “estudar, organizar e lutar”. 

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