Carta aberta ao Lesbocenso 2021

A GARRa Feminista, cumprindo seu papel de luta pela emancipação de todas as mulheres, tenta aderir e participar dos mais diversos eixos de mobilização que envolvam os direitos das mulheres, a exemplo das construções do 8 de Março e da Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de Belo Horizonte.

Desta forma, acompanhamos as redes sociais do Lesbocenso, desde seu surgimento.  Segundo a definição das próprias realizadoras, Coturno de Vênus (associação lésbica feminista de Brasília), e a Liga Brasileira Lésbica (LBL), o Lesbocenso é uma pesquisa “para mapear o perfil sócio-demográfico e as vivências das lésbicas e sapatão (sic)”.

Essa pesquisa está sendo feita a partir de um formulário on-line, suas organizadoras se comunicam através de site próprio e por meio de sua página no instagram. Enquanto  feministas radicais, que têm a pauta lésbica enquanto prioritária, ficamos animadas com a possibilidade de um registro nacional sobre a realidade das lésbicas brasileiras.

Quando o Lesbocenso foi liberado para respostas, algumas perguntas presentes no mesmo nos  trouxeram preocupações por estarem evidentemente afastadas das pautas históricas lésbicas feministas, entretanto, escolhemos observar como se daria o desenrolar dos debates tão logo iniciados por diversos grupos formados por lésbicas – a exemplo do Podcast Sapataria, que realizou lives para expor as deficiências do censo¹ – e também por pessoas não organizadas; que denunciavam discordâncias políticas, incômodos com a aparente lesbofobia de algumas questões e por isso lutavam para que houvessem mudanças no Lesbocenso, para que ele se adequasse melhor às necessidades e valores políticos das lésbicas, seu público alvo. Entretanto, nenhum posicionamento público foi dado pela organização até o presente momento.

Conforme já dito, um dos desacordos iniciais identificados por nossa coletiva se deu em razão de algumas perguntas constantes no formulário. 

Já no início, uma questão direciona as respostas para uma obrigatoriedade do reconhecimento de identidade de gênero, sendo as únicas opções existentes no formulário: “cisgênero”, “pessoa trans”, “não binária”, “agênero” “não sei”, “não quero responder” ou “outro” (aqui, com a possibilidade de especificar). 

Entendemos que um questionário que visa apresentar uma pesquisa sobre lésbicas (um lesbocenso) , não pode estar deslocada da pauta política dessas mulheres. Mulheres essas que historicamente se rebelaram contra a invisibilidade do “não sei” e do “não quero responder”, a desumanização do “outro” e que, muitas, são críticas de gênero, basta ler sobre a Ameaça Lavanda, o Levante do Ferro’s Bar e os significados dos símbolos da bandeira Lábris, para compreender a divergência contida nessa exigência.

Outra pergunta que gerou incômodo a diversas lésbicas – que inclusive se manifestaram no instagram do Lesbocenso – possui uma “régua” que impõe que as mulheres informem a medida da sua “expressão de gênero”, sendo de 1, feminilidade padrão, a 100, masculinidade padrão . As lésbicas não apenas não desejam ser obrigadas a se colocar nesse lugar, de se medirem em uma régua imposta a elas para obrigatoriamente colocarem um número fixo para a forma que se expressam em sociedade, isso é extremamente humilhante. Como para muitas, se trata de verdadeira violência, já que uma das agressões a elas destinadas é a comparação constante com o homem – incluindo a acusação de querer imitá-lo.

A necessidade dessas mulheres, apagadas cotidianamente pela sociedade, é que dados reais sobre suas vidas e suas necessidades específicas sejam registrados, a fim de possibilitar  que políticas públicas sejam demandadas, planejadas e executadas. Um Lesbocenso precisa criar um ambiente (mesmo que virtual)  seguro e de confiança para a população que busca atender,  tem que  ser um projeto comprometido com seu objeto de estudo: – as lésbicas.

Temos consciência de que a construção feminista não é feita apenas de consensos, mas são as pautas comuns que unem as mulheres em torno de objetivos iguais, o Lesbocenso pareceu não se importar com o que há em comum na história e cotidiano de luta das lésbicas, desta forma, é com preocupação e indignação que escrevemos essa carta aberta, motivadas por razões que vão desde a metodologia falha utilizada na pesquisa até a forma desrespeitosa que as lésbicas, público alvo do censo, estão sendo tratadas pelas organizadoras. 

Decidimos deixar de ser meras espectadoras e expôr nossas discordâncias quando, no início de 2022, explodiram nas redes sociais as reclamações de um outro grupo que se sentiu ofendido por uma pergunta constante do censo, que questionava se a respondente já havia sofrido violência e, em caso afirmativo,  quem seria  o agente  dessa violência.  Dentre as diversas opções de resposta, constava também “pessoa trans”. Grupos transativistas consideraram a existência dessa opção como transfobia.

Em resposta a essa acusação, as organizadoras publicaram uma nota de retratação e alteraram a pergunta, retirando a suposta opção “transfóbica”.

Nosso questionamento não diz respeito à suposta transfobia, mas sim ao seguinte fato: quando lésbicas fizeram apontamentos e críticas, as realizadoras informaram a total impossibilidade de alteração nas perguntas; não fizeram qualquer postagem com esclarecimentos, quanto menos retratação ou pedidos de desculpas.

Se vê, assim, a diferença gritante de tratamento ofertado aos transativistas e às lésbicas. Para os primeiros, retirada da opção na pergunta, pedido de desculpas e retratação pública. Para as segundas, silêncio público e chamada para reuniões privadas que se limitaram a informar à “impossibilidade de alterar perguntas” sem qualquer tentativa de acolhimento para as tantas mulheres que se declararam violentadas pelo censo. Diante dessa incoerência por parte do Lesbocenso, muitas foram até referida postagem manifestar sua insatisfação. Mais uma vez, foram ignoradas pelas organizadoras. 

Se a suposta alternativa transfóbica pôde ser retirada, por que aquelas apontadas anteriormente como lesbofóbicas não o foram, mesmo que em momento posterior? Nenhuma alternativa foi ofertada pelo Lesbocenso.

Um outro estranhamento foi quando, logo após a postagem da Retratação e, posterior volume de questionamentos nela, as organizadoras fecharam os comentários e dias depois fizeram publicação contendo um aviso de que medidas legais estavam sendo tomadas em relação a comentários “difamatórios, caluniosos e/ou transfóbicos”, o que gerou novo questionamento: – seria  essa a resposta da Coordenação Nacional do Lesbocenso para todos os comentários que ficaram sem respostas?

Não concordamos que a judicialização seja o caminho para acessar e debater com mulheres que já são marcadas pelo desmerecimento dos seus afetos, silenciamento de suas vozes e pelo preconceito com a sua sexualidade. Mulheres essas que, em sua maioria, viram no Lesbocenso uma oportunidade para serem ouvidas por um projeto com abrangência nacional.

Essa diferença de tratamento sinaliza um posicionamento político das idealizadoras, consciente ou não; e gera, por si só, um viés de seleção na pesquisa², uma vez que, diante de tamanho incômodo e discordância, muitas lésbicas se negaram a responder ao censo.

Percebe-se, ainda, a falta de transparência quanto à condução da pesquisa e também no diálogo com a sociedade – incluindo os próprios sujeitos de estudo- , evidenciada pela recusa das organizadoras em solucionar e expôr as contundentes reclamações feitas por lésbicas às perguntas citadas. 

Enquanto atuantes na luta pelo fim da lesbofobia, reconhecemos a importância e a ambição necessária da proposta de mapear lésbicas – população já tão negligenciada pelo Estado – e traçar seus perfis sociodemográficos, quase que desconhecido devido ao desinteresse da academia a este respeito. 

Reforçamos, no entanto, a necessidade de se considerar os apontamentos levantados por todas elas, independentemente de seu alinhamento político e de se conduzir a pesquisa com total transparência e equivalência de tratamento.

Acreditamos que o debate com outras mulheres é um dos principais meios de crescimento e promoção do pensamento feminista, por essa razão as demandas devem ser respondidas de maneira fundamentada, política e honesta, sendo essa ação imprescindível para a criação e manutenção de um espaço para a construção de conhecimento e evolução das pautas comuns.

Quando um Lesbocenso silencia, bloqueia, ignora e cria rumores entre lésbicas, tudo a que ele se propõe se deturpa. 


 ¹ em que pese, a GARRa feminista não concorda com todos os argumentos apresentados pelas participantes da live, entretanto, destacamos que estamos em harmonia com a maior parte do debate estabelecido; a live na íntegra pode ser assistida aqui: https://www.instagram.com/tv/CVRMi0ZA_Jd/?utm_medium=copy_link   

²  Um viés é um erro sistemático e unilateral em uma pesquisa. Por exemplo, considere um pesquisador que está comparando o peso de bebês do grupo 1 e do grupo 2; a balança que afere o peso dos bebês do primeiro grupo está com defeito e conta 200 g a mais, e a balança do segundo está funcionando bem. O pesquisador vai encontrar, pois, uma diferença (ou mesmo uma semelhança) que não corresponde à realidade. Da mesma forma, quando uma pesquisa tem muitas recusas e os convocados que a recusam compartilham características em comum, a amostra da pesquisa pode não representar a população estudada. Diz-se, pois, que a amostra está enviesada.

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