Isso é abuso!

Práticas abusivas utilizadas pelo sexo masculino contra o sexo feminino em espaços de militância

texto original: https://web.archive.org/web/20130623005532/http://wwomenwwarriors.wordpress.com/2013/03/26/this-is-abuse/

Como uma sobrevivente de abuso sociopata e narcisista, se tornou um requerimento padrão na minha própria cura me tornar perita nos modos do abusador, para que eu consiga identificar abusadores precocemente e evitar mais dos mesmos traumas que esse tipo de relacionamento causa.

Eu não sou psicóloga. Mas em alguns aspectos, eu sei o funcionamento interno de um ciclo de abusos por ter sido submetida a vários deles, e assim precisei me tornar especialista em identificar o ciclo para escapar dele.

Quando eu comecei a interagir com feministas radicais e a ler literatura feminista radical, a palavra trans surgia bastante. Eu não sabia quase nada sobre pessoas trans e sua ideologia ou sequer que havia uma, a não ser que elas eram pessoas que viviam suas vidas se identificando como o sexo oposto ao que haviam nascido. Eu não tinha opiniões firmes sobre essa noção, apesar de que, o conceito de gênero aparecia frequentemente como um conceito importante para avaliar o entendimento da natureza do status das mulheres na sociedade sobre o patriarcado e a dominação masculina. Já que pessoas transgêneras são, como a palavra sugere relacionadas a gênero, é inevitável que o tópico suja.

Foto de ativista trans. ‘Cis’ é o que eles chamam de mulheres não trans. ‘Scum’(escória) é para feministas radicais

Mas nem foi a minha introdução formal ao transgenerismo. Antes mesmo de eu sequer ter tido uma conversa com uma pessoa trans, eu já tinha sido atacada por discurso de ódio contra elas. Eu tinha escrito uma postagem no blog sobre minha experiência descobrindo feminismo radical e como isso tinha impactado minha relação com meu ex-noivo. O discurso de ódio nesse artigo, me disseram, era a ausência da discussão sobre pessoas transgênero. Isso parecia imediatamente estranho para mim, já que a postagem era sobre algo não relacionado ao transgenerismo. Não tinha nem passado remotamente pela minha cabeça que eu deveria falar sobre isso em uma postagem, sobre um assunto completamente diferente. Omissão era discurso de ódio, e não era permitida. Isso me chocou imediatamente por ser uma expectativa e irrealista: que eu deveria sempre lembrar de mencionar pessoas trans sempre que eu quisesse falar sobre qualquer coisa relacionada a feminismo.

Eu desconsiderei a importância disso, como se fosse uma situação isolada, uma excentricidade que não seria provável que eu encontrasse de novo. Então eu foquei nos direitos das mulheres e deixei isso para trás.

Isso também não é permitido.

Desde aquela introdução, eu fiz um esforço para entender teoria trans, mas eu fiquei sobrecarregada com o quanto havia para saber. Eu sabia que havia um histórico que eu ainda não tinha aprendido, um histórico sobre feministas radicais e o movimento trans, e algo sobre isso me deixava apreensiva. Eu ouvi sobre as ameaças de violência logo depois. Eu ainda não tinha visto nenhuma com os meus próprios olhos. Isso estava fadado a acontecer eventualmente, já que gênero também estava em falta na minha análise da opressão das mulheres, então era apenas uma questão de tempo até que o entendimento completo da situação se tornasse claro.

E mais claro a cada dia.

Mais interações do que eu posso sequer contar agora, apenas nos meus primeiros meses engajada com o movimento feminista, iluminaram o assunto de um jeito que eu sinto que precisa ser expresso em palavras. 

Isso foi se juntando parte a parte, e então as partes, conforme eu as movia sobre a mesa na minha cabeça, mostraram uma imagem que eu conheço bem demais.

Apesar de eu estar honestamente intimidada pelo que eu presenciei até agora, eu sei que há outras mulheres buscando colocar um nome – um conceito – no que elas estão experimentando. 

É abuso. Ousar chamar isso de abuso também é tabu, mas é esse o caso com abusadores. Não que eu esteja terrivelmente incomodada em nível individual de que algumas pessoas vivem as suas vidas como se identificando do sexo oposto. Entretanto, eu não acredito que as implicações políticas ou sociais de mudar de gênero conduzem para a libertação das mulheres. Ao examinar a natureza estrutural e sistêmica da opressão das mulheres, a ideologia e prática trans transparecem oposta a um esforço no sentido de um ambiente social mais saudável para mulheres e homens igualmente. Por defender essa visão, eu e muitas outras mulheres vivemos a parte mais violenta de um backlash considerável. A forma que esse backlash se manifesta tem uma lista de elementos característicos de comportamento abusivo clássico. Vamos dar uma olhada nelas:

Xingamento: mulheres que criticam o uso de gênero são rotineiramente e muito rapidamente chamadas de transfóbicas, scum (escória), vis, perigosas, nazistas e censuradas por apresentar qualquer visão diferente da total e completa adesão às visões de ativistas e teóricos trans. Isso acontece independentemente do qual diplomaticamente nós tentamos nos engajar nas discussões, e, até o momento, sem qualquer ataques verbais ou xingamentos em resposta.

Ameaças de violência: mulheres feministas radicais são rotineiramente ameaçadas com violências físicas que inclui espancamento, estupros, esfaqueamentos, e até morte.

Assédio e perseguição: feministas radicais têm sido assediadas privadamente e em público. Ativistas trans têm aparecido em eventos feministas radicais, às vezes em números grandes, para assediar, ameaçar e agredir verbalmente as mulheres que comparecem aos eventos, algumas vezes focando em uma mulher que eles desgastam particularmente.No ambiente online, algumas feministas radicais recebem constantes e-mails e mensagens privadas contendo ameaças de violência ou de agressão verbal.

Reunindo apoiadores e facilitadores: ativistas trans recrutam ajuda de mulheres para se aliarem a eles e ajudarem nas atividades mencionadas acima. A empatia das mulheres é explorada para avançar os objetivos dos ativistas trans, mesmo se os objetivos são alcançados através do abuso contra mulheres que sustentam qualquer opinião que eles não gostam. Quase todas as feministas de terceira onda apoiam, protegem e ajudam indivíduos trans a promoverem os seus abusos.

Reversões: a palavra cis foi cunhada e aplicada à mulheres que não se identificam como trans, e é dela que a teoria de mulheres cis oprimindo pessoas trans é formada. Sob essa analogia, mulheres são acusadas de estar oprimindo homens, porque esses homens agora alegam serem mulheres. Uma vez que nós não alegamos ser nada, já que simplesmente somos humanos do sexo feminino não importando como nos identificamos, nós somos reformuladas como “o opressor” por não assumirmos uma identidade que se posiciona a favor do mais oprimido. Isso joga de lado completamente a realidade material de que nós vivemos numa cultura patriarcal e dominada pelo sexo masculino, em que fêmeas humanas são oprimidas numa escala global por homens que tem poder e privilégios sobre nós. Tanto faz como nós poderíamos nos identificar, se nós escolhêssemos, essa realidade não mudaria significativamente. A situação inteira foi virada de cabeça para baixo ao simplesmente adicionar em algumas palavras a língua e desenvolverem uma teoria ao redor do vocabulário. É verdade que pessoas transgêneras enfrentam desafios únicos quando vivem suas vidas ao se apresentar em como do sexo oposto, mas não é o caso que agora as mulheres as estão oprimindo. 

Projeção: feministas radicais são acusadas de terem ódio, medo e ter desejos em violar os direitos humanos das pessoas trans. Considerando o comportamento delineado nessa lista, eu argumento que isso é projeção.

Gas-lighting: nos dizem rotineiramente que as ameaças de violência não estão acontecendo de verdade, que nós estamos inventando tudo, que o problema é que nós somos intolerantes e cheias de ódio ou ignorantes. É necessário que tudo seja completamente documentado ou então sua existência é negada.

Apagamento/ minimização: por exemplo, a palavra fêmea é considerada ofensiva e qualquer conversa sobre menstruação ou maternidade é chamada de transfóbico ou discurso de ódio.

Tentativas de controlar, mudar ou distorcer a realidade: isso também é relacionado ao gás-lighting, como mencionado acima. Por exemplo, insistirem que homens que se identificam como mulheres têm vaginas, que não existe essa coisa de fêmea humana, ou insistir em que um pênis é feminino, etc, são todas formas de distorção da realidade.

Isolamento: porque os ativistas trans tem um interesse no movimento feminista, um racha no movimento pode ser encontrando ao redor do posicionamento sobre trans. Em círculos feministas, uma mulher expressa qualquer crítica ou às vezes até mesmo uma questão sobre a natureza de gênero e transgenerismo, ela é imediatamente ostracizada, banida do grupo e rejeitada por suas irmãs. Os únicos grupos em que isso não acontece é entre outras feministas radicais. Nós somos isoladas por não nos conformarmos a uma ideologia sobre a qual nós temos objeções não por abuso ou discurso de ódio, mas por discordar. Xingamentos, falar mal e ataques verbais são perfeitamente toleradas quando direcionado à uma feminista por uma pessoa trans. Discordar de uma pessoa trans, não importa quão diplomática e autêntica a intenção de ter uma discussão respeitosa, é justificativa para banimento.

Sabotagem: quando feministas radicais organizam um evento, frequentemente protestavam intensamente contra ele, sempre do mesmo jeito, e algumas vezes são bem-sucedidos em destruí-lo. Reputações de mulheres são alvo de maneira similar ao jeito como um abusador clássico conta a cidade toda e a todos os chefes da mulher que ela é “uma vadia maluca”. O objetivo é isolá-la ainda mais e intimidá-la a retornar ao abusador ou puni-la por ir embora.

Atenção: nós não podemos focar em nós mesmas. Como mencionado na minha própria experiência, eu fui criticada por não mencionar transgenerismo no meu artigo sobre algo completamente não relacionado. Isso é universal. Qualquer foco completo nos direitos das mulheres biológicas é atacado. Discussões sobre mulheres e meninas ou qualquer coisa que só afeta mulheres que nascem mulheres, é atacado por não incluir pessoas trans.

Constante, e eu quero dizer CONSTANTE, drama: certamente para nos atordoar, tão logo nós anunciamos uma reunião, nós temos que fazer hora extra para garantir que não vai ser fechada por conta da sabotagem de ativistas trans. Tão logo nós começamos uma discussão, digamos sobre direitos de maternidade, nós temos que adereçar uma investida de acusações de que nós somos intolerantes transfóbicas. Na verdade, apenas dizer eu sou uma feminista radical num grupo de feministas misto pode ser causa para uma imediata revolta de solidariedade ao redor do tópico de transgenerismo e nada mais. Pode durar a tarde toda, o dia todo, a semana toda, o mês todo, droga nós entendemos nesse ponto que nunca vai terminar. Nós não temos um segundo para respirar e reavaliar o que está acontecendo ou focar nas nossas próprias necessidades . Blogs estão sendo derrubados, mulheres estão tendo suas caixas de e-mail lotadas, eventos estão sendo invadidos, grupos estão rachando na metade, etc – ad nauseam. Eu estou pisando em ovos, porque eu temo que há um problema à espreita de cada esquina quando eu tento fazer qualquer coisa para melhorar a situação das mulheres.

Nenhum respeito por limites: espaços de mulheres nascidas mulheres são infiltradas regularmente. Discussão acontece ridicularizando lésbicas por não serem atraídas sexualmente a pessoas do sexo masculino que viram trans. Qualquer estabelecimento de qualquer limite por uma mulher que é verificado por uma pessoa trans deve ser removida, ou então a mulher está no páreo para a lista de ações acima. Isso é um ponto especialmente sensível para mulheres, porque nós não somos criadas sentindo que temos o direito de estabelecer limites e somos ensinadas que ter limite é abusar das pessoas que querem cruzá-los.

Ameaças de suicídio e automutilação: dizem constantemente às feministas radicais que nós estamos matando pessoas trans, apesar de não haver absolutamente nenhum registro de assassinato real acontecendo em que uma feminista radical matou uma pessoa trans. Nós somos acusadas de causar violência contra pessoas trans, de fazer pessoas machucarem a si mesmas, e de sermos responsáveis por seus suicídios. Isso me lembra quando o meu ex, um sociopata narcisista, fingiu seu próprio suicídio quando eu finalmente afastei dele e não voltei. Ele convenceu a sua própria mãe a me ligar e me acusar de ter matado o filho dela. Eu descobri depois que ele nunca sequer havia estado em coma, mas tinha de alguma forma convencido ela de que ela precisava dizer aquilo para que eu falasse com ele, o que eu não fiz. Ele era abusivo e eu sabia que aquilo era uma armadilha. Um outro ex, também abusivo, uma vez deu um soco numa porta de vidro que eu tinha fechado com medo de ser atacada por ele e quando ele entrou na casa, ele me mostrou a sua mão ensanguentada e disse: “Olha o que você me fez fazer”. Isso é manipulação psicológica. Eu jamais quero que alguém seja tão atormentado que chegue a tirar sua própria vida, mas isso é uma tentativa abusiva e coercitiva de fazer a pessoa concordar com você, ou então  ocorrerá ameaças de suicídio ou tentativa de culpá-la pelo suicídio de outras pessoas.

Em conclusão, baseado nessa lista de comportamentos, eu encontro no movimento trans o emprego de táticas abusivas contra feministas radicais. Eu sei de pelo menos uma mulher que chegou a precisar de uma ordem restritiva para se proteger de violência física depois de ser veementemente perseguida. Eu conheço várias mulheres que prontamente temem falar de qualquer forma por causa de alguma forma de ataque violento acontecendo. Eu experimentei o suficiente disso eu mesma para estar absolutamente farta e pronta para dizer: não mais.

Não importa como nós discordamos uns com os outros, este comportamento é completamente inaceitável. É intolerável. Reunindo um exército, um movimento que tem como alvo um grupo de mulheres e então as bombardeando com abuso não é OK. 

Eu tenho certeza de que, vai vir desse artigo dos  por parte dos ativistas trans é uma assertiva de que nós causamos isso, de que nós pedimos por isso de alguma forma. Onde é que nós ouvimos esse argumento antes?

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