Domesticação Internacional: Mulheres e a Nova Divisão Internacional do Trabalho

(Capítulo 4 do livro “Patriarcado & Acumulação numa Escala Mundial”, de Maria Mies)

Tradução Livre: GARRa Feminista

Trazemos a tradução completa do capítulo 4 do livro “Patriarcado & Acumulação numa Escala Mundial” escrito pela Maria Mies. Esse livro não está completamente traduzido, mas no blog Feminismo Com Classe há diversas partes já traduzidas. O livro traz uma perspectiva importante da relação íntima do capitalismo com o patriarcado.

Caso queira o pdf. pode baixar aqui!


Capital internacional redescobre as mulheres do Terceiro Mundo 

No capítulo anterior, foi mostrado que o desenvolvimento do capitalismo na economia global foi baseado não somente numa divisão internacional do trabalho específica, em que colônias foram sujeitadas e exploradas, mas também numa manipulação particular da divisão sexual do trabalho. A lógica governando ambas divisões é a relação contraditória entre o progresso de um polo e a regressão do outro. A partir do século XVI, o mundo foi dividido em áreas e regiões nas quais diferentes, mas intrinsecamente conectadas, formas de trabalho ou relações de produção foram introduzidas para os diversos tipos de produção. A concentração do capital, entretanto, ocorreu nos estados centrais da Europa e, posteriormente, também nos EUA. O conceito de Divisão Internacional do Trabalho (DIT) tem sido usado para descrever a divisão estrutural, isto é, a relação vertical existente entre as potências coloniais e suas colônias dependentes na África, América Latina e Ásia. 

A DIT anterior iniciou-se no período colonial e durou quase até a década de setenta deste século. Nela, as matérias-primas eram produzidas nas colônias ou ex-colônias e transportadas para os países industrializados da Europa e dos EUA – e mais tarde também para o Japão – em que eram transformadas em produtos industriais a serem comercializados internamente ou exportados.  Nas fases iniciais desta DIT, esses produtos feitos à máquina, sobretudo os têxteis, foram lançados à força nos mercados das colônias. Para a maioria deles, isso significou a ruína de sua própria indústria têxtil já que os produtos feitos à máquina eram mais baratos. A destruição da indústria têxtil indiana, substituída pelo uso de tecidos de fabricação inglesa, é o exemplo mais conhecido desse processo (Dutt, 1970). 

Nesta DIT, a mão-de-obra não tinha o mesmo valor nas colônias e nos metrópoles. Nas colônias, os custos de produção eram baixos em parte em razão do uso de mão de obra escrava (por exemplo, nas plantações), ou por outras formas de controle do trabalho (por exemplo, contrato de trabalho) que impediam o surgimento do trabalhador assalariado livre, o protótipo do trabalhador industrial no Ocidente.  Assim, a antiga DIT consistia na importação de matérias-primas baratas das colônias e ex-colônias, produzidas por mão de obra barata, e na produção de bens feitos à máquina nas metrópoles, por mão de obra cara, que também tinha o poder de compra para comprar essas commodities.Como recebiam pouco, o poder de compra dos trabalhadores nas colônias permaneceu baixo. Essa relação levou, como sabemos, a um enriquecimento e desenvolvimento cada vez mais acentuado dos países industrializados, acompanhado de maiores demandas salariais dos trabalhadores, os quais também participavam desse enriquecimento pautado na exploração das colônias e de seus trabalhadores. Esses trabalhadores explorados sofriam, assim, um contínuo empobrecimento e subdesenvolvimento. 

Todavia, na década de 1970, os dirigentes das grandes corporações nacionais e multinacionais da Europa,  dos EUA e do Japão, perceberam que o período de boom que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial havia acabado: Aquele crescimento econômico contínuo, que havia sido pregado às pessoas nos países industrializados como um dogma,  algo que consideravam natural, havia chegado ao fim.Frente a essa decadência, instaurou-se um temor frente a possibilidade de surgirem manifestações sociais se a população percebesse que a recessão não era apenas uma crise temporária. Portanto, tornou-se primordial a necessidade de mudar o sistema da economia mundial – ou a DIT, de forma que o crescimento contínuo retornasse aos países capitalistas. Esse novo modelo, elaborado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a organização supranacional dos países industriais ocidentais, instaurava que os processos de produção intensivos em mão de obra – e, portanto, os custos com a mão de obra – deveriam ser exportados para as colônias, agora chamados de países em desenvolvimento, Terceiro Mundo, etc.. Logo, parques industriais inteiros seriam transferidos para esses países, e os trabalhadores do Terceiro Mundo produziriam os bens de consumo industrializados para as massas dos países ocidentais.Ao mesmo tempo, a agricultura dos países em desenvolvimento deveria ser modernizada por meio de novos insumos tecnológicos, para que também pudesse exportar produtos aos países ricos (Froebel et al, 1980). 

Essa industrialização parcial dos países do Terceiro Mundo não foi acompanhada de um maior controle, por parte desses países, sobre a produção, as fábricas do mercado mundial e as indústrias estabelecidas nas zonas de livre comércio.  As fábricas realocadas nas Filipinas, Malásia, Coréia do Sul, Cingapura, México, Sri Lanka e Tailândia pertencem em grande parte a corporações multinacionais dos EUA, Alemanha e Japão. Nesse momento, o processo de produção ainda era bastante intensivo em mão de obra e ainda não havia sido industrializado em um grau muito elevado. Essas eram principalmente as indústrias têxteis e de vestuário, a indústria eletrônica e a indústria de brinquedos. A realocação de indústrias de países desenvolvidos para países subdesenvolvidos não resulta em uma genuína industrialização destes últimos, mas sim o fechamento de uma fábrica específica na Alemanha Federal, Holanda ou EUA, e sua reabertura no Sudeste Asiático, na África ou na América Latina. Isso significa que, 

as calças para o mercado federal alemão já não são produzidas em Monchengladbach, mas sim na filial tunisina da mesma empresa federal alemã. 

. . . As bombas de injeção, que antes eram fabricadas para o mercado federal alemão por uma empresa federal alemã em Stuttgart, agora são fabricadas pela mesma empresa em um local na Índia. Os aparelhos de televisão são produzidos na mesma base por outra empresa em Taiwan; equipamentos de rádio para automóveis na Malásia

. . . relógios em Hong Kong e componentes eletrônicos em Cingapura e Malásia se enquadram na mesma categoria (Froebel et al, 1980: 9-10).

A chamada terceira revolução tecnológica, a “revolução” do computador, baseada no desenvolvimento de semicondutores e microprocessadores, somente foi possível pela realocação de empresas, principalmente americanas e japonesas, para o Sudeste Asiático, assim como pela superexploração de mulheres asiáticas, que constituíam até 80% da força de trabalho nessas indústrias eletrônicas (Grossman, 1979; Froebel et al, 1980).

Algumas das consequências desta nova DIT são as seguintes: 

1. O aumento do desemprego dos trabalhadores nos países industrializados. Como muitas das fábricas realocadas empregavam principalmente mulheres, esse desemprego afeta mais mulheres que homens. 

2. Os países em desenvolvimento tornam-se áreas de produção para os países ricos, ao passo que os países ricos tornam-se cada vez mais áreas exclusivas de consumo. A produção e o consumo estão agora divididos pelo mercado mundial em um grau sem precedentes. 

3. A produção, voltada para a exportação nos países em desenvolvimento, direciona a maior parte do tempo de trabalho, matérias-primas, habilidades e desenvolvimento técnico para a demanda dos mercados dos países ricos, e não para as necessidades dos seus habitantes. 

4. À medida em que os mercados dos países industrializados tornam-se saturados com os bens de consumo necessários, os trabalhadores do Terceiro Mundo são cada vez mais forçados a produzir itens supérfluos de luxo para os países ricos (por exemplo, flores, artesanato, alimentos e frutas de luxo e aparelhos de entretenimento), ou componentes para equipamentos militares e outras tecnologias de ponta, como microprocessadores. 

5. Como essas commodities são produzidas em países com salários extremamente baixos, elas podem ser vendidas nos países ricos a preços reduzidos para que se tornem bens de consumo de massa. Itens que antes eram de luxo absoluto para uma pequena elite (orquídeas, por exemplo), agora podem ser comprados durante todo o ano por um preço baixo por trabalhadores comuns. Isso significa que, apesar do aumento do desemprego e da diminuição dos salários reais, a nova DIT garante um nível de consumo de massa nos países ricos que ajuda a prevenir o surgimento de manifestações e revoltas sociais. No entanto, esse jogo para segurar as tensões sociais só é possível enquanto esses países forem capazes de manter esse nível de poder de compra em massa. Até agora, os estados capitalistas ocidentais conseguiram manter esse nível. 

A estratégia da nova DIT pode funcionar apenas se duas condições forem satisfeitas: 

1. As indústrias realocadas, os agro-negócios e outras empresas orientadas para a exportação devem ser capazes de encontrar, nos países subdesenvolvidos, trabalhadores mais baratos, dóceis e manipuláveis, a fim de reduzir os custos de produção o máximo possível 

2. Essas corporações devem mobilizar os consumidores dos países ricos para comprar todos os itens produzidos nos países do Terceiro Mundo. 

Em ambas estratégias, a mobilização das mulheres desempenha um papel essencial. Além da integração frequentemente analisada das mulheres como donas de casa no processo de acumulação capitalista, a integração do trabalho das mulheres do Terceiro Mundo na economia de mercado global ocorre em quatro setores principais: 

1. Em indústrias de manufatura de grande escala, principalmente de propriedade de empresas transnacionais em Zonas Livres de Produção ou em Fábricas do Mercado Mundial. Essas indústrias incluem principalmente as de eletrônicos, têxteis, de vestuários e de brinquedos. Além dessas unidades centrais, muitas vezes há aquelas auxiliares de pequena escala, seja de pequenas oficinas ou de indústrias caseiras às quais certos processos de produção são subcontratados (ver o modelo japonês). 

2. Na fabricação em pequena escala de uma variedade de bens de consumo, desde artesanato, processamento de alimentos, fabricação de roupas até a confecção de objetos de arte. Esse setor, geralmente denominado “setor informal”, é encontrado tanto em favelas urbanas quanto em áreas rurais. Às vezes, as mulheres formavam cooperativas na tentativa de evitar a exploração dos intermediários que comercializavam os produtos. É característico desse setor que alguns dos produtos produzidos pelas mulheres fossem itens tradicionalmente produzidos para o consumo da comunidade, ou seja, não tinham valor de troca, mas apenas um valor de uso. Com a integração desses bens em um sistema de mercado externo, esses itens tornam-se commodities e seus produtores tornam-se produtores de commodities, mesmo que se mantivesse a mesma forma de produção, como a produção familiar. Nos últimos anos, um esforço deliberado tem sido feito – conhecido como a estratégia para aumentar as atividades de geração de renda entre as mulheres pobres do Terceiro Mundo – para vincular essa área do trabalho feminino ao mercado mundial. 

3. A terceira área em que o trabalho das mulheres está integrado ao mercado mundial é a agricultura. Ela inclui: 

a. produção de safras comerciais em grande escala para exportação (por exemplo, morangos, flores, vegetais); 

b. mulheres que trabalham nas plantações (chá, café); 

c. mulheres que trabalham como “mão-de-obra familiar” não remunerada em pequenas unidades camponesas que produzem por conta própria ou por contrato para firmas de agro-negócios; 

d. mulheres que trabalham como “mão-de-obra familiar” não remunerada em cooperativas que produzem para exportação; e. mulheres que trabalham como mão-de-obra ocasional na agricultura comercial (arroz, açúcar). 

As mudanças na divisão sexual do trabalho que estão ocorrendo sob o impacto desta nova estratégia de integração de todos os países em um sistema de mercado global são tais que os homens podem ganhar acesso a dinheiro, novas habilidades, tecnologia, trabalho assalariado e propriedade produtiva. As mulheres, por outro lado, são cada vez mais definidas como “dependentes”, ou seja, donas de casa, independentemente do fato de que em muitos casos – como, por exemplo, na África – elas ainda desempenham o papel mais crucial na produção de subsistência. 

4. O trabalho das mulheres em uma quarta área tem ganhado importância crescente nos últimos anos: mulheres servindo homens europeus, americanos e japoneses na indústria do turismo e do sexo, principalmente na Ásia e na África. 

Embora seja interessante fazer um estudo sistemático da interação entre a nova divisão internacional do trabalho e a manipulação da divisão sexual do trabalho em cada uma das áreas acima mencionadas e em todo o mundo, acho que para o propósito deste estudo, basta analisar alguns casos característicos. Graças ao trabalho feito nos últimos anos sobre os efeitos do “desenvolvimento” nas mulheres do Terceiro Mundo, hoje possuímos evidências empíricas suficientes para sermos capazes de identificar as principais tendências. Mas antes de chegar a esses exemplos mais concretos, pode ser útil nos perguntar por que, de repente, as mulheres, e ainda por cima as mulheres pobres do Terceiro Mundo, foram redescobertas pelo capital internacional (“redescobertas” porque elas já haviam sido descobertas nos estágios iniciais do colonialismo, como vimos).  Se alguém fosse acreditar nas muitas declarações oficiais sobre a necessidade de ‘integrar as mulheres ao desenvolvimento’ feitas na década de 1970, particularmente após a Conferência Internacional de Mulheres no México em 1975, pode-se pensar que houve uma verdadeira mudança de atitude nos centros do patriarcado capitalista. Contudo, se tivermos em mente o cinismo com que as mulheres do século XVI em diante foram tratadas, teremos que nos perguntar quais as razões mais profundas para toda essa atenção dada às mulheres nas colônias hoje.

Por que mulheres?

Proponho as seguintes teses para nos guiar em nossa busca para encontrar uma resposta à pergunta acima:

1. Ao contrário do que é comumente aceito, as mulheres, não os homens, são a força de trabalho ideal para o processo de acumulação capitalista (e socialista) em escala mundial. Embora tenha sido sempre assim, agora esse fato está abertamente incorporado às estratégias econômicas dos planejadores nacionais e internacionais.

2. As mulheres são a força de trabalho ideal porque agora estão sendo universalmente definidas como “donas de casa”, não como trabalhadoras; isso significa que seu trabalho, seja no valor de uso ou na produção de mercadorias: é obscurecido, não aparece como “trabalho livre assalariado”, é definido como uma “atividade geradora de renda” e pode, portanto, ser comprado a um preço muito mais barato do que o trabalho masculino .

3. Além disso, ao definir as mulheres universalmente como donas de casa, é possível não apenas baratear seu trabalho, mas também obter controle político e ideológico sobre elas. As donas de casa estão atomizadas e isoladas, sua organização do trabalho dificulta muito a consciência de interesses comuns, de todo o processo de produção. Seu horizonte permanece limitado pela família. Os sindicatos nunca se interessaram pelas mulheres donas de casa.

4. Devido a este interesse pelas mulheres, especialmente por aquelas nas colônias, como a força de trabalho ideal, não observamos uma tendência à generalização do proletário “livre” como o trabalhador típico, mas sim de um proletário composto de trabalhadores marginalizados, não livres, domesticados, em sua maioria mulheres.

5. Essa tendência é baseada na divisão sexual e internacional do trabalho (homens definidos como trabalhadores assalariados “livres”, mulheres como donas de casa não livres) e na divisão entre produtores (principalmente nas colônias e no campo) e consumidores (principalmente nos países ricos e nas cidades). Dentro dessa divisão, há também a divisão entre as mulheres produtoras nas colônias e as consumidoras, especialmente no Ocidente.

6. A superabundância de mercadorias nos supermercados ocidentais não é o resultado – como geralmente se supõe – da “produtividade” do trabalho nos países industrializados; esta ‘produtividade’ é ela própria um resultado da exploração das colônias, especialmente das mulheres. Espero que o último seja particularmente verdadeiro se perguntarmos quem constitui a força de trabalho nos países do Terceiro Mundo hoje. Embora não tenhamos estatísticas cobrindo amplas áreas do trabalho feminino (por exemplo, no “setor informal”), ainda temos evidências suficientes do fato de que hoje dois terços de todo o trabalho no mundo é feito por mulheres (Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, Copenhague, 1980). 

Nos países de “Produção Livre” no Sudeste Asiático, na África e na América Latina, mais de 70 por cento da força de trabalho é feminina. Assim como Frobel e seus associados descobriram, a maioria das mulheres são mulheres jovens (14-24 anos). Elas trabalham na linha de montagem dos processos de produção, enquanto os poucos homens nessas indústrias são principalmente supervisores (Frobel et al, 1977: 529-30).  

Se, a este número de mulheres jovens nas Zonas Livres de Produção, adicionarmos todas as mulheres que trabalham no agronegócio voltado para a exportação, no setor informal, e na indústria doméstica e artesanal, notamos que uma proporção muito grande da mão de obra feminina nos países do Terceiro Mundo está envolvida na produção de bens para o mercado dos países ricos. Devemos também incluir nesta figura as centenas de milhões de mulheres que fazem a maior parte do trabalho árduo na agricultura na África e na Ásia – tanto na subsistência, como frequentemente também na produção de safras comerciais – e, claro, também nas plantações.

 Mas o que é isso que torna as mulheres do Terceiro Mundo mais atraentes que homens como trabalhadoras do capital internacional? Rachael Grossman e outros (1979) descobriram que as mulheres no Sul e no Sudeste Asiático são consideradas a força de trabalho mais dócil e manipulável, ao mesmo tempo que mostram um alto grau de produtividade no trabalho. 

A maioria dos governos que desejam atrair investidores estrangeiros anunciam suas mulheres atraentes de baixa remuneração com seus “dedos ágeis”. Aqui está um anúncio do governo da Malásia: 

“A destreza manual da mulher oriental é famosa em todo o mundo. Suas mãos são pequenas e ela trabalha rápido com extremo cuidado. Que, portanto, poderia ser mais bem qualificada por natureza e herança para contribuir para a eficiência de uma bancada de montagem linha de produção do que a garota oriental?” (Grossman, 1979: 8). 

Um oficial da INTEL Corporation, uma empresa de semicondutores dos EUA na Malásia, disse: “Contratamos meninas porque elas têm menos energia, são mais disciplinadas e são mais fáceis de controlar” (Grossman, 1979: 2). O Bureau de Investimentos do Terceiro Mundo do Haiti, tentando atrair investidores alemães, publicou um anúncio contendo a imagem de uma bela mulher haitiana e o texto: “Agora você consegue mais mão de obra para o seu DM. Por apenas 1 dólar americano, ela trabalha feliz para você durante oito horas, e muitas, muitas centenas de seus amigos também o farão “(Frobel et al, 1977: 528; trad. M .M). 

Os tons sexistas desses anúncios são bastante óbvios. Tem-se a impressão de que esses governos, como cafetões, oferecem suas jovens ao capital estrangeiro. Na verdade, a prostituição não faz parte apenas da indústria do turismo, mas também do planejamento de empreendimentos comerciais nos países do Terceiro Mundo. 

É impossível não notar o “contexto da prostituição” dentro do qual a nova DIT ocorre, mas se quisermos entender se o novo interesse nas mulheres do Terceiro Mundo se baseia em um estratégia sistemática ou não, é útil olhar mais atentamente para os vários projetos e programas, concebidos principalmente por organizações internacionais, que são sumariamente entitulados “Integrando Mulheres ao Desenvolvimento”. 

Quase ao mesmo tempo que essa nova DIT estava sendo elaborada e posta em prática, o mundo se conscientizou da necessidade de “integrar as mulheres ao desenvolvimento”. Já em 1970, Esther Boserup descobriu que as mulheres não haviam se beneficiado de qualquer desenvolvimento ocorrido nos países do Terceiro Mundo. Suas descobertas foram corroboradas pelos muitos relatórios sobre a situação da mulher preparados pelos governos para a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, realizada no México em 1975. Foi descoberto que a situação das mulheres havia se deteriorado na maioria dos países do Terceiro e até do Primeiro Mundo, em todas as esferas: política, trabalho, educação, saúde e direito. Como consequência, o Plano de Ação Mundial apresentado por esta conferência exigia que os governos dedicassem esforços substanciais para remediar a situação e integrar as mulheres ao desenvolvimento. 

Depois disso, as organizações da ONU, o Banco Mundial, as ONGs, todas começaram a falar sobre as mulheres e a incluir um capítulo sobre as mulheres e o desenvolvimento em seu programa. Podemos considerar isso como uma genuína mudança de atitude por parte dos planejadores de desenvolvimento do sexo masculino? Estariam agora realmente interessados ​​na libertação das mulheres depois de as terem esquecido em todos os anos anteriores? E o que eles querem dizer com “integração das mulheres ao desenvolvimento”? 

Para começar, não esqueçamos de uma coisa: as mulheres também foram integradas na velha estratégia de desenvolvimento. Seu trabalho não remunerado ou mal remunerado como trabalhadoras agrícolas, como operárias nas fábricas e como donas de casa também foi a base do que se chamou de “modernização” nos países em desenvolvimento. Mas esse trabalho permaneceu invisível e forneceu grande parte da base de subsistência sobre a qual o trabalho masculino emergiu, logo o trabalho das mulheres subsidiou o salário masculino (Deere, 1976). 

Agora, contudo, algo a mais foi feito. “Integrar as mulheres no desenvolvimento” significa, na maioria dos casos, fazer com que as mulheres trabalhem em algumas atividades chamadas de geração de renda, isto é, entrar na produção voltada para o mercado. Isso não significa que as mulheres devam expandir sua produção de subsistência, que devam tentar obter mais controle sobre a terra e produzir mais para seu próprio consumo, mais alimentos, mais roupas, etc., para si mesmas. A receita desta estratégia significa receita em dinheiro. E a renda em dinheiro só pode ser gerada se as mulheres produzirem algo que possa ser vendido no mercado. 

Como o poder de compra das mulheres pobres do Terceiro Mundo é baixo, elas precisam produzir algo para as pessoas que têm esse poder de compra. E essas pessoas vivem nas cidades de seus próprios países, ou vivem nos países ocidentais. Isso significa que a estratégia de integrar o trabalho feminino ao desenvolvimento também equivale a uma produção voltada para a exportação ou para o mercado. As mulheres pobres do Terceiro Mundo não produzem o que precisam, mas o que os outros podem comprar. 

Outra característica dessa estratégia é que ela define as mulheres do Terceiro Mundo não como trabalhadoras, mas como donas de casa. O que eles fazem não é definido como trabalho, mas como uma “atividade”. Ao universalizar a ideologia da dona de casa e o modelo de família nuclear como um sinal de progresso, também é possível definir todo o trabalho que as mulheres fazem – seja no setor formal ou informal – como trabalho complementar, sua renda como renda complementar ao do chamado principal “ganha-pão”, o marido.  

A lógica econômica dessa dona de casa é uma tremenda redução dos custos de mão de obra. Esta é uma das razões pelas quais o capital internacional e seus porta-vozes estão agora interessados ​​nas mulheres. Como vimos, essa estratégia foi elaborada pela primeira vez na Europa e nos Estados Unidos dos séculos XIX e XX. A dona de casa foi o complemento necessário para a criação do proletário “livre”. Mas enquanto na Europa e nos EUA muitos trabalhadores podem se dar ao luxo de alimentar uma dona de casa “não trabalhadora” (devido à exploração das colônias), as grandes massas de homens do Terceiro Mundo nunca estarão em posição de ter uma “dona de casa não trabalhadora”. Portanto, a estratégia de geração de renda para as mulheres é baseada em uma imagem de mulher que não tem base empírica entre a maioria das mulheres do Terceiro Mundo. No Caribe, mais de um terço de todas as famílias não são chefiadas por um homem que sustenta a família (cf. Reddock, 1984). Pesquisas recentes mostraram que o número de famílias chefiadas e economicamente sustentadas por mulheres está aumentando, particularmente nas áreas rurais da Ásia, África e América Latina (Youssef/Hetler, 1984). As razões apresentadas são: a produção de safras comerciais para exportação, a mecanização da agricultura e  as mudanças nos sistemas de posse de terra, a qual os pobres têm cada vez menos acesso. 

Os homens migraram para as cidades em busca de trabalho assalariado ou foram para áreas mais remuneradas, como a produção de safras comerciais, deixando suas mulheres e famílias para trás. Já se sabe que os homens que migraram para as cidades ou para outros países não só ficam fora por cerca de 20 anos (Obbo, 1980), mas também muitas vezes desistem parcial ou totalmente de sua responsabilidade como “provedor” da família. Particularmente na África, as mulheres rurais “deixadas para trás” pelos homens da emigração tornaram-se 

as principais, senão as únicas apoiadoras das famílias rurais (Mali, Gana, Brasil, Togo, Libéria, Nigéria, Suazilândia e partes de Uganda). A incapacidade de depender dos rendimentos do marido levou essas mulheres a se dedicarem à lavoura ou comércio para pagar os impostos sobre a terra e os custos do trabalho agrícola (Handwerker, 1974; C arr, 1980; O bbo, 1980; Ahmad e Loutfi, 1981). 

As mulheres iorubás reclamam que as remessas que recebem são insuficientes. No Lesoto, apenas 50 por cento de todas as mulheres chefes de família tiveram acesso a remessas (Youssef/Hetler, 1984: 44-45). 

Essas descobertas mostram que as mulheres nos países do Terceiro Mundo, especialmente nas áreas rurais afetadas pelos processos de modernização, estão se tornando cada vez mais chefes de família.  Contudo, essa realidade não mudou o fato de serem definidas, tanto legalmente como ideologia comum, quanto como donas de casa dependentes e seus maridos como chefes de família. Pelo contrário, quanto mais a base material para o surgimento do casal capitalista clássico – o assalariado ‘livre’ ou o proprietário ‘livre’ dos meios de produção e sua dona de casa dependente – é minada nos países do Terceiro Mundo, mais esta realidade factual fica mistificada ao propagar e universalizar esse modelo – que é o núcleo estrutural e ideológico em torno do qual os programas de desenvolvimento são construídos. 

A divisão sexual do trabalho capitalista, sintetizada neste famoso casal, é o princípio estratégico responsável pelo fato de as mulheres nas diversas atividades geradoras de renda, onde produzem mercadorias para o mercado, não são remuneradas com salário. São trabalhadoras que, na reforma agrária, não recebem a propriedade independente e legal da terra, que não têm acesso a outra propriedade produtiva e que, nas cooperativas, são meros apêndices aos membros do sexo masculino e não podem ser independentes (Werlhof, 1983). 

Esta mistificação de que as mulheres são basicamente donas de casa não é um efeito colateral acidental da nova DIT, mas uma pré-condição necessária para seu bom funcionamento, uma vez que: torna invisível grande parte do trabalho que é explorado para o mercado mundial; justifica salários baixos; impede as mulheres de se organizarem; as mantém atomizadas; dirige a sua atenção para uma imagem sexista e patriarcal da mulher – a da dona de casa’’real”, apoiada por um homem, que é inviável para a maioria das mulheres e destrutiva do ponto de vista da libertação feminina. 

À medida em que diminui a chance de que a maioria das mulheres do Terceiro Mundo se tornem donas de casa “reais”, aumenta-se a ofensiva ideológica difundida por todos os meios de comunicação, visando universalizar essa imagem patriarcal como a de mulheres “modernas, progressistas”, de “boas” mulheres. 

Mulheres como “criadoras” e consumidoras 

As mulheres  “más”

Esta estratégia de mobilizar mulheres pobres, baratas, dóceis, hábeis e submissas do Terceiro Mundo para a produção voltada para a exportação é apenas um lado da divisão global do trabalho. Como dissemos antes, não basta que essas mercadorias sejam produzidas o mais barato possível, elas também precisam ser vendidas. Nas estratégias de marketing das corporações ocidentais e japonesas do Terceiro Mundo, que prosperam na produção voltada para a exportação, as mulheres ocidentais também desempenham um papel crucial, aqui não como produtoras, mas como consumidoras, donas de casa, objetos sexuais e outros. 

Como produtoras, mulheres na Europa e nos Estados Unidos foram as primeiras a serem demitidas em consequência desta nova DIT. Elas perderam seus empregos nas indústrias têxteis e elétricas. Quando Philips em Eindhoven, na Holanda, fechou sua fábrica para reabrir outras em países do Terceiro Mundo, milhares de mulheres perderam seus empregos. Elas foram mandadas para suas cozinhas com o argumento de que deveriam ser solidárias com as mulheres do Terceiro Mundo que precisavam de trabalho, enquanto na Holanda a renda do marido era tão alta que uma mulher podia ficar em casa e usar seu tempo para cuidar melhor dos filhos. 

Ao mesmo tempo, essas mesmas empresas multinacionais (EMNs) mobilizam mulheres constantemente como compradoras de seus produtos. A enorme expansão da TV e a introdução da TV a cabo tem como objetivo principal a expansão da publicidade. A maior parte da publicidade é direcionada às mulheres como consumidoras, ou os próprios anúncios contêm imagens de mulheres como símbolos sexuais como seu ingrediente mais importante. 

Dessa forma, a nova DIT divide o mundo em produtores e consumidores, mas também divide as mulheres internacionalmente e em termos de classe – em produtoras e consumidoras. Essa relação é estruturada de tal forma que as mulheres do Terceiro Mundo são objetivamente – não subjetivamente – vinculadas às mulheres do Primeiro Mundo por meio das mercadorias que estas compram. Essa não é apenas uma relação contraditória, mas também uma em que os dois atores, cada um em um lado do globo, não se conhecem nem um pouco. 

As mulheres do Sul e do Sudeste Asiático mal sabem o que produzem ou para quem fazem as coisas que fazem. Por outro lado, a dona de casa ocidental está totalmente alheia ao trabalho feminino, às condições de trabalho, aos salários e às demais estruturas sob as quais as coisas que ela compra são produzidas. Ela só está interessada em conseguir essas coisas o mais barato possível. Ela, como a maioria dos outros em países ocidentais, atribui a superabundância em nossos supermercados à “produtividade” dos trabalhadores ocidentais. 

Teremos que discutir se esta estratégia contraditória que divide as mulheres em todo o mundo em trabalhadoras e donas de casa contribui para a libertação das mulheres. Costuma-se argumentar que essa estratégia dá empregos às mulheres do Terceiro Mundo e bens de consumo baratos às mulheres/donas de casa ocidentais. Portanto, ambos deveriam estar felizes. No entanto, se olharmos mais de perto as consequências dessa estratégia, podemos chegar a outra conclusão: a escravidão e a exploração de um grupo de mulheres é a base de um tipo qualitativamente diferente de escravidão de outro grupo de mulheres. Uma é a condição e também a consequência da outra. A divisão entre mulheres como produtoras e mulheres como mães e consumidoras tem ainda outra dimensão que desempenha um papel importante, senão o mais importante, nas estratégias da nova DIT. 

Enquanto as mulheres nos países industrializados ricos são cada vez mais expulsas do “setor formal” e lembradas de que seu destino “natural” é a família, o trabalho “reprodutivo” para o marido e filhos e o trabalho de consumo, cada vez mais as mulheres do Terceiro Mundo são consideradas altamente indesejáveis, até mesmo dispensáveis como consumidoras e procriadoras. Na verdade, se olharmos para as declarações feitas por governos ocidentais, particularmente pelos EUA, as organizações da ONU, e também por organizações não governamentais, que surgiram desde o final dos anos 60, pode-se ver que as mulheres do Terceiro Mundo como potenciais ‘criadoras’ e consumidoras são vistas como uma das ameaças mais graves para o mundo como um todo. 

Bonnie Mass (1976) aponta que a Declaração da ONU sobre População é continuamente citada fora do contexto e é usada para transmitir a noção de que a superpopulação é o maior problema do mundo hoje. Assim, citando a ONU, um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos já escrevia em 1969: 

“Este é o maior desafio que a ONU e o mundo enfrentam hoje. Este conflito entre um mundo subnutrido em rápido crescimento dando lugar ao desespero e à violência, e um mundo possível em que os indivíduos vivam construtivamente com dignidade e suficiência exige o maior esforço e dedicação desta era” (citado por Mass, 1976: 7). 

Como Bonnie Mass mostrou, a estratégia neo-maltusiana de colocar a culpa da pobreza e da fome nos países colonizados nos próprios pobres foi sistematicamente desenvolvida pelos pilares do capitalismo corporativo e do imperialismo, primeiro pela Fundação Rockefeller, o Departamento de Estado dos EUA e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (ADI), então do Banco Mundial. Eles venderam essa estratégia a um grande número de governos do Terceiro Mundo e praticamente a todos os governos ocidentais. Em 1968, o Banco Mundial declarou:

“Todas as atividades [de planejamento familiar] surgem da preocupação do Banco com a maneira pela qual o rápido crescimento da população se tornou um grande obstáculo para o desenvolvimento social e econômico em muitos de nossos Estados membros. Os programas de planejamento familiar são menos onerosos do que os projetos de desenvolvimento convencionais e o padrão de despesas envolvido normalmente é muito diferente. Ao mesmo tempo, estamos cientes do fato de que programas bem-sucedidos desse tipo produzirão retornos econômicos muito elevados” (EK Hawkins, 1968). 

Finalmente, as várias organizações da ONU foram convencidas com sucesso de que a “explosão populacional” era o maior problema dos países subdesenvolvidos e que os programas de planejamento familiar deveriam ser adicionados às suas outras atividades. Até mesmo a Organização Internacional do Trabalho começou a introduzir o planejamento familiar em sua política para países subdesenvolvidos. De 1970 a 1979, as despesas anuais da OIT com atividades populacionais, financiadas pelo Fundo das Nações Unidas para Atividades Populacionais (FNUAP), aumentaram de US $ 60.217 para US $ 4.500.000 (declaração do Conselho de Administração da OIT, GB 211 / OP / 31 1979). É bastante revelador que uma organização que restringiu seu foco à “esfera produtiva’” onde as pessoas aparecem como “força de trabalho”, começou a se interessar pela “família” e pelas mulheres como “produtoras de forças de trabalho” somente quando o controle populacional tornou-se uma área prioritária, e não por uma preocupação com as mulheres como seres humanos. 

Embora toda esta política tenha sido eufemisticamente camuflada como “planejamento familiar” ou mesmo “bem-estar familiar”, ela fez das mulheres, desde o início, seu principal grupo-alvo para pesquisas e medidas políticas. Depois da Conferência da LJN sobre População em Bucareste em 1974, e particularmente após a Conferência Mundial da ONU sobre Mulheres no México em 1975, esse foco nas mulheres e em seu “status” tornou-se bastante explícito em uma série de declarações políticas. Em 1975, o Mundo O Banco concluiu: 

“A necessidade de reconhecer e apoiar o papel da mulher no desenvolvimento é uma questão que o Banco Mundial considera de grande importância para si e para seus membros. O Banco espera participar cada vez mais dos esforços desses governos para ampliar os benefícios do desenvolvimento para toda a sua população, tanto mulheres como homens, e assim garantir que uma proporção tão grande dos recursos humanos do mundo não seja subutilizada” (Banco Mundial, 1975). 

O Banco Mundial pressionou os governos que pediam empréstimos para tomar ação social e econômica específica para que esses reduzissem a fertilidade e elevassem o status da mulher social, econômica e politicamente (McNamara, 1977). “Elevar o status da mulher”, no entanto, quando explicitado em concretas medidas políticas consiste principalmente em educar as mulheres para aumentar sua produtividade e aumentar seu conhecimento sobre anticoncepcionais e sua prontidão para aceitar medidas de controle de natalidade. Esses dois objetivos não são contraditórios, embora possa parecer, mas são parte integrante da mesma estratégia de “integrar a produtividade das mulheres pobres supostamente subutilizadas” no processo de acumulação de capital global. 

Esta estratégia está interessada nas mulheres pobres do Terceiro Mundo apenas como produtoras, não como consumidoras e “criadoras”: Por meio da concessão de créditos, seu trabalho está vinculado aos requisitos do capital, não à satisfação de suas próprias necessidades. Para reembolsar esses créditos, que obtiveram por meio de vários programas de desenvolvimento, elas são forçadas a vender os itens que produzem e que podem ser necessários para seu próprio consumo (Bennholdt-Thomsen, 1980: 36), ou são forçadas a produzir itens que não têm valor de uso para elas mesmas, mas que em geral são itens de luxo para o mercado internacional. 

Como nenhum dos programas voltados para a integração das mulheres no desenvolvimento está interessado em aumentar o fundo de consumo dos pobres, mas apenas em aumentar a produção comercializável, a redução do número de consumidores pobres torna-se o “outro lado” necessário dessa estratégia. A subordinação do trabalho produtivo das mulheres pobres sob a acumulação de capital é obscurecida por sua definição como atividade geradora de renda, isto é, por definí-la como o trabalho suplementar de “donas de casa”, seu “comportamento generativo” é empurrado para os holofotes de todo o mundo. A retórica sobre a integração das mulheres do Terceiro Mundo ao desenvolvimento significa precisamente isto: ofuscar o trabalho das mulheres como produtoras de capital, definindo-as como donas de casa e não como trabalhadoras (Mies, 1982), e enfatizando seu comportamento como “criadoras” de consumidores indesejados. 

Uma comparação dos valores gastos em pesquisa populacional e medidas de controle populacional na Ásia, América Latina e África, e os gastos na promoção das atividades geradoras de renda para as mulheres do Terceiro Mundo provavelmente mostraria que as primeiras ultrapassam de longe as últimas. Na verdade, dentro da estratégia de modernização da nova DIT as mulheres do Terceiro Mundo se tornaram, como escreve o demógrafo indiano Ashok Mitra, 

“[uma] mercadoria dispensável como consumidoras e procriadoras: Nos últimos trinta anos após a independência, as mulheres indianas se tornaram cada vez mais dispensáveis mercadorias, dispensável tanto no sentido demográfico quanto no econômico. Demograficamente, a mulher está cada vez mais reduzida às suas funções reprodutivas e, quando estas se realizam, ela é dispensável. Economicamente, ela é implacavelmente expulsa da esfera produtiva e reduzida a uma unidade de consumo, portanto indesejável” (Mitra, 1977).

O que Mitra não vê, entretanto, é o fato de que “ser empurrada para fora da esfera produtiva” não significa que agora o trabalho das mulheres não seja usado produtivamente para a acumulação de capital. É precisamente isso que expulsa as mulheres como “trabalhadoras” e as transforma nos chamados “pequenos empresários” e “donas de casa” no chamado setor informal que torna possível a exploração irrestrita e a superexploração. Se, no decorrer desse processo de superexploração, elas mesmas e seus filhos forem destruídos, não há grande arrependimento, pois, como criadoras e consumidoras, essas mulheres são vistas como uma ameaça ao sistema global. 

E mesmo no que diz respeito à estratégia de usar sua “capacidade subutilizada produtivamente” (Banco Mundial, 1975), pode-se não precisar mais de tantas quanto existem, principalmente porque a alta tecnologia está tornando cada vez mais redundante o trabalho humano. Esta é uma conclusão muito dura? Se olharmos para as estratégias, táticas e tecnologia usadas em países como Índia, Bangladesh, China e Cingapura sob o pretexto de “planejamento familiar”, não podemos deixar de reconhecer uma tendência virtual para o ginocídio. As mulheres do Terceiro Mundo, particularmente na Índia e em Bangladesh, foram usadas sem hesitação como cobaias pelas indústrias farmacêuticas multinacionais para testar métodos perigosos, como amniocentese e anticoncepcionais como Depo Provera – que foram proibidos nos EUA por causa de suas qualidades cancerígenas porém massivamente despejados em muitos países do Terceiro Mundo. O governo de Bangladesh foi forçado não apenas a permitir que todos os tipos de experimentos científicos fossem realizados em seu território, mas também a comprar grandes quantidades de anticoncepcionais da indústria farmacêutica ocidental (Minkin, 1979). 

Nesse contexto, alguns dos tenentes científicos na guerra internacional contra o crescimento populacional não só defendiam medidas compulsórias, mas também o uso aberto e o fortalecimento de atitudes patriarcais e sexistas. Já em 1968, William McElroy, em uma controvérsia com Kinglsey Davis, que defendia essa compulsoriedade, disse: “Na maioria das sociedades, os bebês do sexo masculino são mais desejáveis ​​do que as mulheres e, se o macho fosse o primeiro filho, a motivação para ter filhos adicionais seria reduzida” (McElroy , 1968, citado em Mass, 1975: 22). 

Em 1973, o biólogo Postgate deu um passo adiante ao defender deliberadamente a seleção do sexo como método de controle populacional. Vimal Balasubrahmanyan refere-se à utopia masculina propagada por pessoas como Postgate: Postgate argumenta que o controle da natalidade “não funciona” nos países que “mais precisam” e “métodos alternativos de controle populacional, como guerra, doença, infanticídio legalizado e eutanásia são rejeitadas porque não são seletivas, aceitáveis, rapidamente eficazes ou permanentes o suficiente”. Ele sugere que “procriar machos é a única solução que atende a todos os critérios acima”. 

Incontáveis ​​milhões de pessoas aproveitaram a oportunidade de criar machos (especialmente no terceiro mundo) e nenhuma compulsão ou mesmo propaganda seria necessária para encorajar essa prática, apenas evidência de sucesso pelo exemplo (Balasubrahmanyan, 1982: 1725). Assim, com o avanço da tecnologia de pré-seleção de sexo (amniocentese e scanner de ultrassom), a perspectiva de “procriação masculina” tornou-se prática, não apenas na Índia, mas também na China, com consequências ainda mais abrangentes. 

Na Índia, a prática de abortar fetos femininos, após a determinação do sexo por amniocentese tornou-se um assunto público somente depois que se soube que alguns médicos inteligentes em Amritsar haviam feito um negócio próspero a partir da preferência dos pais indianos por uma prole materna. Eles anunciaram a pré-seleção do sexo e o aborto de fetos femininos. Depois dos protestos de muitos grupos de mulheres na Índia, a prática foi, como temeu Vimal Balasubrahmanyan, simplesmente continuada de uma forma mais discreta, especialmente quando a ultrassonografia se tornou amplamente disponível. Durante uma visita à Índia no verão de 1984, aprendi que a pré-seleção do sexo e o aborto de fetos femininos já eram praticados por muitas pessoas de casta baixa e pobres do interior de Maharashtra. 

O caso da China é ainda mais horrível, pois aqui todo o poderoso estado e aparato partidário é mobilizado para implementar a política do filho único que constitui parte da estratégia de modernização da China depois de Mao. “Criar macho” pode não ser uma estratégia deliberada do governo chinês mas é, como Elisabeth Croll e outros mostraram, o resultado inevitável das contradições entre promover a propriedade privada de terras de pequenos camponeses, a continuação do casamento patrilocal e dos padrões familiares, e a política de filho único do estado. 

Os camponeses que ainda dependem em grande parte dos filhos para a segurança na velhice querem filhos, pois os homens herdam o lote da família e permanecem na aldeia. As filhas são casadas com alguma outra família e aldeia, como é o caso na Índia. Filhas, portanto, não são desejadas. Essa situação é agravada pela política do governo de premiar quem segue a norma do filho único: eles ganham mais terras privadas, se forem camponeses, e ganham mais espaço, escola, instalações de saúde e equipamentos modernos, se eles morarem nas cidades. Assim, aqueles que obtêm mais terras têm menos mão-de-obra familiar para trabalhar nela. Essa contradição, somada às medidas compulsórias do governo, à interação de incentivos e desincentivos sob o controle total do partido, e às crescentes atitudes e relações neo-patriarcais, coloca as mulheres sob pressão de todos os lados, tanto que o feticídio feminino aumentou para dimensões alarmantes (Croll, 1983: 100). 

Quando os acontecimentos foram relatados pela primeira vez na mídia ocidental, um grito de indignação pôde ser ouvido de muitos cantos. Contudo, contraditoriamente, muitas das pessoas que agora condenam a China por sua política anti-mulheres são as mesmas que há anos subscrevem o argumento de que o crescimento populacional é a causa da pobreza nos países do Terceiro Mundo e defendem medidas mais rígidas para reduzir a taxa de natalidade. Depois ainda teremos que analisar com maior profundidade porque um país, depois de uma revolução que adotou um caminho de desenvolvimento socialista, acaba com essa política flagrantemente anti-mulher. Basta dizer aqui que hoje, na República Popular da China, as mulheres são apagadas como trabalhadoras e destacadas como criadoras e consumidoras – logo, como tais, são indesejadas. 

As  mulheres “boas”

A dialética do apagamento e do realce tem mais uma dimensão que foi totalmente excluída do discurso sobre a mulher e o desenvolvimento. Essa dimensão é o papel que as donas de casa desempenham nas classes e nos países superdesenvolvidos. Aqui, novamente, as mulheres são destacadas como mães e consumidoras e apagadas como produtoras. Todavia, embora isso seja considerado altamente indesejável nos países do Terceiro Mundo, todas as políticas nos países e classes que acumulam capital veem isso como altamente desejável para “suas” mulheres. As mulheres do Primeiro Mundo devem, por todos os meios, ser educadas para gerar mais filhos (brancos) que estão gerando atualmente, para comprar mais bens e mercadorias para suas famílias e sua casa, e para verem a si mesmas como objetos sexuais. 

A lógica por trás dessa valorização contraditória de “suas” mulheres e “nossas” mulheres é a mesma que observamos nas fases anteriores do colonialismo. O capital precisa das mulheres nas colônias como produtoras mais baratas que, portanto, não podem ser definidas como “trabalhadoras livres”.  Por outro lado, para comercializar as mercadorias assim produzidas, precisa das mulheres nas metrópoles como consumidoras já que sem consumo ou compra de commodities, não há circulação de capital. Mobilizar as mulheres para cumprir seu dever como consumidoras tornou-se uma das principais estratégias do capital nos países industrializados. O “trabalho de consumo” (Bridges e W einbaum, 1978) está, portanto, crescendo tremendamente nos países ricos, e está usando cada vez mais o tempo “livre” das mulheres trabalhadoras assalariadas e não-assalariadas. Como a maioria das pessoas nos países superdesenvolvidos estão presas ao mercado para a satisfação de suas necessidades básicas, elas são forçadas a fazer esse trabalho de consumo se quiserem sobreviver. 

Com a substituição massiva do trabalho humano por computadores e robôs, esse trabalho de consumo aumentará ainda mais. Se há alguns anos a dona de casa tinha que correr nos supermercados para selecionar as mercadorias, comparar preços, pagar a conta no caixa, levar as mercadorias para casa, desempacotar tudo, guardar tudo e retirar a embalagem, agora ela já é forçada também a colocar ela mesma as mercadorias em uma sacola, pesá-las, colocar o preço no computador e colocar a etiqueta de preço em sua mercadoria, antes que ela possa pagar no balcão. Nesses supermercados, quase não sobrou pessoal de serviço. Todo o trabalho necessário é feito pelos próprios consumidores, exceto a pessoa que deve retirar o dinheiro do cliente no caixa. Mas mesmo isso pode se tornar dispensável quando todos forem forçados a comprar com cartão de crédito ou através do computador doméstico. 

Como observamos anteriormente, o capital internacional não apenas redescobriu as mulheres – principalmente nos países subdesenvolvidos – para reduzir os custos de produção, mas também redescobriu as mulheres nos centros do capitalismo para reduzir os custos de produção de uma demanda adequada por suas mercadorias. Cada vez mais os serviços socializados (saúde, educação, informação e transporte), que em muitos países eram pagos pelo Estado, estão novamente sendo privatizados. Esta privatização significa que o trabalho das donas de casa aumentará tremendamente no futuro. 

Segundo o conto de Jacques A., a produção do consumidor adequado torna-se cada vez mais trabalho dos próprios consumidores. As novas mercadorias requerem um determinado tipo de consumidor, e as novas tecnologias, em particular a microeletrônica, são tais que, de fato, manipulam e produzem esse novo consumidor (Attali, 1979). Quanto mais essa tecnologia chega às famílias, mais forte é o controle do capital sobre os consumidores individuais, especialmente as mulheres. No futuro, as mulheres que foram “empurradas para fora da esfera produtiva” em fábricas e escritórios se encontrarão na frente de um computador doméstico, onde estarão envolvidas no trabalho de casa eletrônico para as mesmas empresas que as expulsaram. Dessa maneira, mais e mais “trabalho assalariado livre” está sendo transformado em trabalho doméstico não-livre, e o consumidor “livre” é forçado a uma estrutura coercitiva que o faz não apenas comprar as mercadorias, mas também ter mais trabalho de consumo do que antes se ele quiser sobreviver. 

Nessa conjuntura, a dona de casa é a força de trabalho ideal para o capital em vez do “proletário livre”, tanto nos países subdesenvolvidos quanto nos superdesenvolvidos (v. Werlhof, 1983). Enquanto a dona de casa consumidora no Ocidente tem que fazer cada vez mais trabalho não remunerado para diminuir os custos de rendimento do capital, a dona de casa produtora nas colônias tem que fazer cada vez mais trabalho não remunerado para diminuir os custos de produção. Ambas categorias de mulheres estão cada vez mais sujeitas não apenas a uma ideologia manipuladora do que uma mulher “moderna”, isto é, uma mulher “boa” deveria ser, mas ainda mais fortemente sujeitas a medidas diretas de coerção, que já era claramente visível no Terceiro Mundo por meio do controle da natalidade. 

A nova estratégia de apagamento do trabalho produtivo das mulheres em troca do capital é propagada sob o lema da “flexibilização do trabalho”. As mulheres não são apenas empurradas para fora do setor formal – como aconteceu há algum tempo com as mulheres indianas – mas são reintegradas ao desenvolvimento capitalista em toda uma gama de atividades informais, não organizadas e de relações de produção não protegidas, presentes no trabalho em tempo parcial, contrato de trabalho, trabalho a domicílio e no trabalho não remunerado na vizinhança. Cada vez mais, o modelo dual segundo o qual a mão de obra do Terceiro Mundo foi segmentada é reintroduzido nos países industrializados. Assim, podemos dizer que a forma como as mulheres do Terceiro Mundo estão atualmente integradas ao desenvolvimento capitalista consiste também num modelo para a reorganização do trabalho nos centros do capitalismo. 

Ideologicamente, entretanto, argumentos racistas cada vez mais abertos são usados ​​para camuflar a similaridade estrutural entre os dois grupos de mulheres. Enquanto as consumidoras donas de casas ocidentais são encorajadas a consumir mais e a criar mais pessoas brancas, as produtoras coloniais – também “donas de casa” – são encorajadas a produzir o mais barato possível e a parar de criar mais pessoas negras. A nova onda de racismo que encontramos hoje no Ocidente tem suas raízes mais profundas nessa contradição, além do crescente temor de que o número cada vez maior de pessoas marginalizadas nos países ricos possam se tornar tão dispensáveis ​​quanto as mulheres nos países do Terceiro Mundo. 

Vínculos: alguns exemplos 

Pode ser nítida essa interação da divisão sexual do trabalho com a nova DIT. O que é menos claro, entretanto, são as ligações que de fato existem entre as donas de casa consumidoras e as donas de casa produtoras. Essa falta de clareza se deve à mistificação criada pela produção de mercadorias e à divisão entre consumo e produção. Uma vez que a mercadoria chega ao seu consumidor, este não é mais capaz de saber quais relações de produção foram incorporadas à mercadoria. Por essa razão, seguem alguns exemplos de análise das relações entre as mulheres do Primeiro Mundo e do Terceiro Mundo. Limito-me neste momento a esta comparação, embora não devamos esquecer que há uma relação semelhante entre mulheres de classes diferentes nos países do Terceiro e Primeiro Mundo. Dos muitos exemplos possíveis, escolho apenas alguns em que essas ligações são menos confusas: 

a. Mulheres na agricultura e na produção de leite; 

b. Mulheres na produção de artesanato; 

c. Mulheres na indústria eletrônica; 

d. Mulheres na prostituição / turismo. 

Pode-se acrescentar uma série de exemplos, como mulheres que produzem flores na Colômbia, mulheres na indústria de roupas no Sul da Ásia (Índia, Sri Lanka) e mulheres na produção de alimentos e peixes, mas nesses exemplos as relações e estruturas são semelhantes aos dos exemplos que já serão analisados. Para esta discussão uso como base as conclusões de vários estudos empíricos realizados nos últimos anos (Mies, 1982, 1984; Risseuw, 1981; Grossman, 1979; Phongpaichit, 1982; v. W erlhof, 1983; M itra, 1984). 

a. Mulheres na agricultura 

Quando as feministas começaram a descobrir e analisar a função do trabalho doméstico para a acumulação de capital, algumas de nós, já em 1978, apontamos para a semelhança estrutural entre as relações de produção da dona de casa ocidental e as do produtor camponês pobre da Ásia. África ou América Latina (cf. v. Werlhof, 1978; Bennholdt-Thom sen, 1981; Mies, 1980). 

As relações de produção de ambos são geralmente consideradas como estando “fora” do capitalismo propriamente dito. Eles são às vezes caracterizados como ‘pré-capitalistas’, ‘semifeudais’, ‘pequeno-burgueses’, etc., pelos marxistas ortodoxos. Uma análise mais detalhada, entretanto, revelou que esses produtores de subsistência, como os chamamos, ainda constituem a base oculta e não-salarial para a reprodução ampliada do capital (ver Bennholdt-Thomsen, 1981). 

Inicialmente, porém, pensamos, seguindo a análise de Carmen Diana Deere (1978), que os produtores camponeses de subsistência subsidiam apenas o salário dos homens que migraram para as cidades ou para os centros industriais do Ocidente. Com a Estratégia dos Pequenos Camponeses do Banco Mundial, ficou claro, no entanto, que esta dimensão – ou seja, a redução dos custos salariais dos proletários ‘reais’ – constitui apenas uma das várias relações de produção pelas quais os camponeses pobres em geral, e os camponeses as mulheres, em particular, são integradas ao processo de acumulação de capital. A seguir, descreverei dois exemplos de como essa integração das mulheres na agricultura pode ocorrer. Um é sobre as trabalhadoras agrícolas típicas e camponesas marginais na Índia (Mies, 1984; Mitra, 1984), o outro é sobre as mulheres em uma cooperativa modelo na Venezuela que produz cana-de-açúcar para o agronegócio (v. Werlhof, 1983). 

O estudo sobre mulheres trabalhadoras agrícolas e camponesas marginais foi realizado no distrito de Nalgonda, no estado de Andhra Pradesh, no sul da Índia. Seu objetivo era descobrir até que ponto a produção orientada para o mercado afetou as condições de trabalho e de vida das trabalhadoras agrícolas típicas, que realizam a maior parte do trabalho nas áreas de produção de arroz do sul da Índia. O trabalho de campo realizado por Lalitha, Krishna Kumari e eu, ocorreu em três aldeias e cobriu toda a gama de trabalho das mulheres, seu trabalho dentro e ao redor de suas cabanas (limpeza, processamento e preparação de alimentos, coleta de água e combustível, cuidado dos búfalos, etc.), bem como nos campos, que incluía transplante de arroz, capina e colheita, transplante, capina e processamento de culturas de rendimento como tabaco, pimenta, sementes oleaginosas, etc. 

Embora o braço deste trabalho, bem como as relações de produção abertas não tenham sofrido nenhuma mudança dramática – as mulheres ainda eram principalmente contratadas como trabalhadoras ocasionais ou ‘coolies’ por fazendeiros médios e ricos, que desde tempos imemoriais cultivavam suas terras com a ajuda de coolies, geralmente pessoas de comunidades intocáveis ​​- a própria essência dessas relações de produção havia sofrido mudanças significativas. 

A relação entre os proprietários e as castas cules não era mais a tradicional em que os cules tinham o direito de fazer determinados trabalhos (por exemplo, remover cadáveres, regar a roça, fazer sapatos, mulheres fazendo todos os trabalhos de transplante e capina em campos, etc.), e tinham direito a receber uma remuneração fixa, geralmente em espécie. Agora os proprietários não se sentiam mais responsáveis ​​por essas pessoas. Devido ao endividamento constante dos pobres, eles conseguiram manter muitos dos homens dessas comunidades como trabalhadores escravos. As mulheres, porém, ainda eram contratadas como mão-de-obra temporária durante a temporada agrícola. Mas eles não eram tratados da maneira tradicional como cules, com direito a certos empregos, nem como trabalhadores assalariados “livres” que tinham direitos contratuais de vender seu trabalho livremente, como fazem os verdadeiros proletários. Eram de fato tratadas como “donas de casa” dependentes, cujo trabalho era considerado complementar ao do “ganha-pão”. Na realidade, porém, essas mulheres não faziam apenas todo o trabalho doméstico, mas também faziam a maior parte do trabalho na agricultura: cerca de 80 por cento das operações agrícolas eram realizadas por elas. Eles constituíam a maior parte da força de trabalho rural. Além disso, em muitos casos, eles eram os verdadeiros ganha-pão de suas famílias porque os homens estavam desempregados ou haviam migrado para a cidade e não devolvido dinheiro. Nos últimos anos, muito tem sido escrito na Índia sobre a tendência que tira as mulheres do trabalho “produtivo” ou do emprego remunerado. A maioria desses estudos é baseada em dados do censo e outras fontes estatísticas que definem o trabalho doméstico como não trabalho. Como todas as mulheres também fazem trabalho doméstico, além dos outros trabalhos que podem fazer, muitos dos seus outros trabalhos desaparecem das estatísticas e, portanto, da percepção do público. Nossas descobertas, no entanto, sugerem que as mulheres rurais na Índia não trabalham menos do que antes, mas sim mais. Na verdade, os homens parecem fazer menos, mas fazem os trabalhos modernos mais bem pagos e de maior prestígio (por exemplo, nas novas máquinas). A modernização e o desenvolvimento capitalista apenas privaram as mulheres trabalhadoras de seus direitos tradicionais, sem lhes dar os novos direitos de ‘proletária’. Mas, uma vez que são forçados a produzir sua própria sobrevivência e a de seus filhos, eles geralmente têm que aceitar salários que estão abaixo do salário mínimo e fazer todos os tipos de trabalho para ganhar a vida. Assim, as mulheres não só empobreceram em termos absolutos, como também empobreceram em termos relativos, nomeadamente em comparação com os homens. 

Como parte do processo de produção agrícola, mesmo nessa área pobre, era voltada para a safra comercial e para a produção mercantil e havia passado por um certo grau de modernização, as mulheres das classes cules tradicionais foram marginalizadas e empobrecidas. Devido à introdução de bombas elétricas e outras máquinas, seus homens perderam o trabalho; muitos haviam deixado as aldeias e outros estavam apenas ociosos, e muitas vezes as mulheres tinham que pagar as contas para as famílias. Além disso, como as castas artesanais tradicionais nas aldeias também haviam perdido em grande parte suas ocupações, devido à introdução de produtos de fabricação industrial, suas mulheres também se juntaram à massa de trabalhadores agrícolas, competindo com as tradicionais mulheres coolie pelos escassos empregos, e reduzindo assim seus salários. 

Nessa situação de pobreza crescente, programas de desenvolvimento de pequenos agricultores foram introduzidos e também estendidos, com a ajuda de uma organização voluntária, às mulheres pobres. Eles incluíam, entre outros objetivos, atividades de geração de renda baseadas em pequenos empréstimos bancários para obter um búfalo, algumas cabras, abrir uma pequena loja, etc. O esquema de búfalo era o item mais importante do pacote. Não envolvia apenas o maior montante do empréstimo, mas também estava mais diretamente integrado ao mecanismo do mercado capitalista e, portanto, estava sob total controle e supervisão. O esquema de búfalos nessas aldeias fazia parte do esquema de desenvolvimento de laticínios, denominado Operação Inundação, por meio do qual a produção de leite na Índia foi intensificada nos últimos anos. Este programa também foi estendido a pequenos agricultores, e mesmo marginais. Os ‘beneficiários’ conseguiram um empréstimo bancário para a compra de um búfalo de alta raça. Ao mesmo tempo, eles se tornaram membros da sociedade cooperativa de laticínios. Eles deveriam entregar todo o leite para a central leiteira, que o transportava para a leiteria da cidade. O reembolso do empréstimo foi garantido de forma que o banco deduzisse 50% do dinheiro do leite diretamente da central de leite. Assim, os produtores reais não obtiveram controle direto sobre o dinheiro do leite até que o empréstimo fosse pago.

 A maior parte do trabalho na manutenção dos búfalos era trabalho de mulheres. As mulheres tinham que coletar a grama para o animal e carregá-la para casa; eles tinham que alimentar, limpar e ordenhar o búfalo. Mas o dinheiro do leite foi recolhido pelos homens. Para camponeses marginais e trabalhadores sem-terra, alimentar um búfalo significava que as mulheres tinham que caminhar quilômetros para encontrar grama e forragem nas bordas dos campos ou em terras não cultivadas. Anteriormente, essa era uma propriedade comum de todos. Os proprietários de terras sempre permitiram que seus biscoitos coletassem forragem em seus campos. Após a introdução do esquema de laticínios, no entanto, os proprietários reivindicaram toda a grama que crescia nos campos ou ao redor deles como sua propriedade privada, que queriam para seu próprio gado ou queriam vender como mercadoria. As mulheres pobres que continuavam a coletar grama da maneira tradicional eram acusadas de roubar a grama e muitas vezes eram espancadas e assediadas pelos proprietários de terras. 

O seguinte relato de uma mulher pode ilustrar o que significa a integração das mulheres pobres neste tipo de produção de commodities: Abamma havia conseguido um búfalo dois anos antes. Por dois meses ela deu cinco litros de leite, por dois meses quatro litros e por dois meses apenas dois litros. Então ela parou de dar leite porque ela havia concebido. O bezerro morreu. Por quase um ano ela não deu leite. Seu marido levou o leite para a central de leite e recolheu o dinheiro do leite. Eles obtiveram Rs (rúpias) 1,50 em média por litro, de acordo com o teor de gordura. Ao todo, eles haviam recebido Rs990 como dinheiro do leite. Desse total, 50% foram deduzidos para o reembolso do empréstimo. Assim, eles receberam Rs445. Abamma comprou ração por Rs76, para alimentar os búfalos durante o período de lactação. Depois de dar à luz, ela parou de dar a mistura de ração porque não tinha dinheiro para pagar por isso. Como quase não tinham terra própria, tiveram que pedir um empréstimo para comprar grama. Ela reembolsou Rsl50 desse empréstimo. Como seu marido trabalhava como carregador na cidade mercantil próxima e ela precisava trabalhar como cule, eles tiveram que contratar alguém para levar o pasto de búfalos. O principal problema era a manutenção dos búfalos durante os meses de verão, março, abril, maio, junho, quando tudo está seco e ressecado. Durante esses meses os búfalos não dão leite, mas precisam ser alimentados. Pessoas pobres como Abamma, entretanto, não têm dinheiro para comprar forragem para o animal quando eles não obtêm leite. Portanto, eles negligenciam o animal durante esses meses ou precisam pedir mais dinheiro emprestado para mantê-lo vivo até o início da monção. A raça local de búfalos está acostumada a viver de pouca forragem durante esses meses sem adoecer, mas o tipo híbrido caro que os camponeses pobres tinham que comprar muitas vezes não sobrevivem nesses meses. Abamma não pôde tomar outro empréstimo para alimentar seus búfalos durante os meses de verão. 

O que Abamma ganhou com seu trabalho extra com o búfalo, que supostamente deveria complementar sua escassa renda com o trabalho assalariado? A búfala deu leite por seis meses em dois anos. Após a dedução de 50 por cento para o reembolso do empréstimo, Abamma ficou com Rs445. Desse montante, ela teve que pagar Rs76  ou mistura de ração e Rs150 para o reembolso do empréstimo para a grama. O menino que levou o búfalo para pastar também teve que ser pago, mas ela não disse o que deu a ele. Em uma estimativa, ele conseguiu Rs40. Portanto, a receita líquida do esquema de laticínios para Abamma foi Rs445 – Rs266 = Rsl79. No curso de dois anos, Abamma havia ganhado Rsl79. O leite que ela havia produzido durante esses dois anos, no entanto, era vendido na cidade por Rs 2,50 o litro; isso equivale a Rs 2.475 para 990 litros. Se compararmos agora essa renda com o tempo de trabalho despendido na manutenção dos búfalos e na produção de leite, poderemos ver como esse esquema, que supostamente deveria ajudar os pobres, se compara à exploração das mulheres na agricultura.. Os lucros obtidos com a venda do leite na cidade não são distribuídos aos produtores reais, mas são apropriados, neste caso, principalmente pela Andhra Pradesh Dairy Corporation e por várias empresas privadas que vendem produtos lácteos na cidade. Como trabalhadora agrícola, ela recebia Rs2,50 por dia. Como ela trabalhava oito horas por dia, isso equivalia a Rs 0,31 por hora. A exploração de Abamma como produtora de mercadorias é, portanto, mais do que o dobro dela como operária assalariada (Mies, 1984: 176-7). 

Em um estudo mais recente e amplo sobre os efeitos da Operação Dilúvio em mulheres camponesas pobres e marginais em Andhra Pradesh, Manoshi Mitra corrobora esses achados. Ela descobriu que a introdução da produção leiteira entre os camponeses sem-terra e pobres aumentou a carga de trabalho das mulheres, sem lhes dar acesso adequado aos frutos de seu trabalho ou a novos meios de participação e gestão de cooperativas de laticínios. Não apenas todos os empregos remunerados nas cooperativas eram ocupados por homens, mas os homens também controlavam a renda dos laticínios. Além disso, as mulheres de famílias de camponeses pobres e sem-terra que produziam leite quase não consumiam leite. O pouco leite que essas mulheres guardavam para suas famílias era consumido pelos homens ou pelos filhos homens, as meninas quase não recebiam. Ela também descobriu que com a nova renda em dinheiro do leite, muitos homens, que normalmente controlavam essa renda, pararam de ir para o trabalho agrícola e ficaram sob o pretexto de cuidar dos animais (Mitra, 1984). Essas descobertas corroboram a tese de Veronika Bennholdt-Thomsen sobre a lucratividade do ‘investimento nos pobres’ (Bennholdt-Thomsen, 1980), o capital de controle fica sobre os produtores caseiros, por meio da extensão do crédito e sobre o real efeito de ‘gotejamento’ , que ocorre devido a esse programa de desenvolvimento aparentemente destinado a ajudar as mulheres pobres. Eles também mostram claramente (que esses programas aumentam a desigualdade entre homens e mulheres, mulheres fazendo mais trabalho e recebendo uma porção menor do pudim. Assim, agravam a polarização entre os sexos. 

O outro lado: 

A análise desse processo de ‘escoamento ‘mulheres camponesas pobres e sem-terra na Índia de seu trabalho e seu leite – um processo chamado’ Operação Inundação ‘(OF) na tradição da nova língua orwelliana (‘inundadas’  as cidades, ‘drenadas’ são as aldeias e as mulheres) – seria ser incompleto sem pelo menos uma breve análise das conexões entre a superexploração das mulheres pobres na Índia integrada P na produção capitalista de leite, e a superprodução de leite no Mercado Comum Europeu. A dona de casa francesa, que pode escolher entre centenas de variedades de queijo, iogurte, laticínios, natas, etc., para fazer com mulheres como Abamma?  A dona de casa consumidora ocidental comum dificilmente sabe disso antes da ‘Operação Inundação’, o leite que era produzido nas aldeias da Índia também era consumido nas aldeias. Agora é exportado para as cidades. Ela também não saberá o que a exploração de Abamma tem a ver com o mar de leite e as montanhas de manteiga do Mercado Comum Europeu. E, no entanto, é por isso que a ‘Operação Flood’ (OF) foi iniciada. 

Quando a Comissão Econômica Européia estava procurando em 1968 por um lugar para despejar seu excedente de leite e óleo de manteiga, eles descobriram a Índia. Inicialmente, eles ofereceram seu excedente a organizações leiteiras indianas como presentes. Estes deveriam reconstituir leite desnatado (SMP) em leite e produtos lácteos para vender aos mercados urbanos e, assim, ganhar o capital necessário para investir na modernização da indústria de laticínios na Índia. O governo indiano então abordou a Food e Organização da Agricultura (FAO) para obter doações de óleo de manteiga e leite em pó da CEE.

Com um investimento inicial de INR 954 milhões (estimativa revisada, Rsl 164 milhões), o OF foi o maior programa de desenvolvimento de laticínios já lançado no mundo. Prometia criar uma “revolução branca” ao copiar o modelo da Kaira District Cooperative Milk Producers Union Ltd., em Anand, em Gujerat, e “inundar” as cidades com leite produzido na zona rural. Esperava-se que essa “inundação” fosse alcançada, entre outros, por meio da extensão dos laticínios, a instalação de centros rurais de coleta e refrigeração de leite, o desenvolvimento de animais leiteiros melhorados e a organização de produtores de leite em cooperativas. As cidades obteriam mais leite e os produtores de leite teriam mais renda. Esperava-se que, dessa forma, os pobres também obtivessem mais leite. Que essa expectativa não foi cumprida agora é admitida por muitos. As quatro grandes cidades – Bombaim, Delhi, Madras e Calcutá – obtêm, entretanto, mais leite. Mas, uma vez que a maioria da população urbana pobre não pode comprar leite ao preço de Rs2, os laticínios convertem o leite em outro item de luxo como sorvete, doces ou comida para bebê. Assim, são principalmente as donas de casa de classe média que se beneficiam do OF e que têm acesso a produtos lácteos caros, não os pobres rurais ou urbanos.

Na Europa, entretanto, o OF indiano como receptor do leite excedente tem desempenhado um papel importante na manutenção da superprodução contínua de leite, baseada na importação de ração para gado de países do Terceiro Mundo e dos EUA, e em preços subsidiados pelo Estado. Produtores de leite europeus, multinacionais europeias de alimentos e todos os governos europeus tinham um interesse vital em manter a OF funcionando e crescendo, uma vez que os ajudava a resolver os problemas de superprodução de leite que, de outra forma, poderia ter levado à agitação política. Ao mesmo tempo, o excesso de abundância de leite levou a uma enorme proliferação de produtos produzidos industrialmente produtos lácteos que competem pela atenção da dona de casa europeia. As multinacionais alimentares, que controlam o mercado, mobilizam constantemente a dona de casa europeia através da TV e outros anúncios para comprar mais produtos lácteos. Eles têm um interesse vital em propagar ainda mais a imagem da dona de casa como mãe, consumidora e objeto sexual.

Mulheres Trabalhando para o Agronegócio: 

O modelo de dona de casa tem importância estratégica não apenas no setor informal do meio rural, mas também nos setores mais modernos do agronegócio. Claudia von Werlhof (1983) mostrou que na Venezuela o trabalho feminino não é apenas explorado na forma de trabalho familiar não remunerado dos pequenos camponeses, mas também nas grandes e modernas cooperativas de cana-de-açúcar, que foram estabelecidas pelo Estado após a reforma agrária e que, por contrato e crédito, produzem diretamente para o agronegócio. Na cooperativa modelo de Cumaripa, na província de Yaracuy, os homens só podiam se tornar membros da cooperativa se tivessem família, ou seja, se pudessem substituir o trabalho próprio pelo de suas esposas e filhos. Se eles estivessem doentes, a esposa ou os filhos tinham que trabalhar em seu lugar. Mas as mulheres não podiam se tornar membros da cooperativa. Elas só podiam entrar na cooperativa por meio do casamento. Isso significa que foram definidas como donas de casa, ligadas a um chefe de família do sexo masculino. A mulher, portanto, tinha que estar pronta e capaz de fazer todo o trabalho que seu marido tinha que fazer, mas sem seus direitos e até mesmo sem direito à renda monetária. Portanto, a posição econômica das mulheres era pior neste tipo mais moderno de cooperativa. Segundo Claudia von Werlhof, as mulheres eram definidas como donas de casa nessa cooperativa porque, dessa forma, eram constituídas uma reserva de mão de obra sempre pronta e disponível, que nem precisava ser paga. Esse modelo, promovido pelo Estado, garantiu que não só os homens da cooperativa pudessem utilizar seu próprio trabalho produtivo em benefício próprio, mas também a cooperativa como um todo e, finalmente, a agroindústria para a qual trabalhava. 

Além dessa integração invisível do trabalho feminino na produção de safras comerciais, no entanto, essas mulheres também foram mobilizadas como donas de casa – com a ajuda de assistentes sociais rurais e por meio da promoção de ‘créditos de donas de casa’ – para mudar seus hábitos alimentares e para aprender novas habilidades (por exemplo, fazer bonecas), afim de usar o chamado tempo de lazer de forma produtiva, entrar diretamente na produção de commodities e complementar a renda do ganha-pão. Assim, o trabalho dessas mulheres estava totalmente subordinado à produção de mercadorias e à acumulação de capital, mas ainda aparecia como a produção de subsistência das donas de casa. Claudia von Werlhof conclui: Ser dona de casa não significa não ser produtora de commodities, mas sim figurar como produtora de subsistência apesar de ser produtora de commodities ”(v. Werlhof, 1983: 148; trad. MM). É essa mistificação que torna o modelo de dona de casa tão lucrativo para o capital. A cooperativa modelo Cumaripa produzia cana-de-açúcar para o agronegócio por contrato. Não se sabe como e de que formas esse açúcar acabou entrando no mercado mundial, nem quais foram os produtos finais que podem ter chegado aos consumidores nos países ricos ou nas cidades do Terceiro Mundo. Não estou, portanto, em posição de rastrear as ligações diretas que podem existir entre as donas de casa nos EUA ou na Europa e as donas de casa-produtoras não remuneradas na Venezuela. Essa dificuldade em traçar o caminho do produto desde o produtor primário até o consumidor final é típica de muitos dos produtos que entram no mercado mundial por meio do agronegócio. Enquanto no caso de frutas e vegetais exóticos, ainda pode ser fácil, o quadro fica totalmente borrado no caso de culturas de rendimento como mandioca, tapioca, óleo de palma, açúcar, amendoim, etc., que são usados ​​como matéria-prima para a produção de ração animal ou itens alimentares. Podemos apenas afirmar em termos gerais que o fato de o trabalho não remunerado das mulheres ser aproveitado para a produção dessas mercadorias deve ser visto como uma das razões pelas quais há uma superabundância de mercadorias nos mercados ocidentais. 

Assim, o trabalho doméstico não remunerado nos países do Terceiro Mundo não é apenas aproveitado para a produção de mercadorias que podem ser consumidas diretamente pelas donas de casa nos países ricos, mas também para a produção de mercadorias que podem ser usadas como matéria-prima para uma variedade de outras produções, processos, incluindo a produção de armas. A transformação do açúcar em álcool em substituição à gasolina pode servir de ilustração. 

b. Mulheres na produção de artesanato (tapetes de renda e fibra de coco) 

A produção de artesanato tem sido propagada há muito tempo como uma estratégia para as mulheres pobres das áreas rurais e urbanas dos países do Terceiro Mundo para ‘complementar’ suas rendas escassas. Essa estratégia se baseia em indústrias domésticas ou caseiras. As mulheres fazem esse trabalho em seu tempo de “lazer” em casa. Elas se consideram donas de casa e não trabalhadoras. O trabalho geralmente é organizado por meio do sistema de lançamento. As mulheres recebem taxas de trabalho por tarefa que estão muito abaixo do salário mínimo dos trabalhadores agrícolas. Em nosso estudo sobre as rendeiras de Narsapur, que já estavam engajadas nessa indústria no século XIX, a taxa de salário diário era de cerca de US $0,58 para oito horas de trabalho. Mais de cem mil mulheres estavam engajadas nessa indústria, mas não foram encontradas nas estatísticas como trabalhadoras. Seu trabalho foi definido como uma atividade de lazer das donas de casa. 

Todas as rendas foram exportadas para EUA, Europa, Austrália e África do Sul. As próprias mulheres não tinham absolutamente nenhuma utilidade em suas cabanas para os produtos de renda que fabricavam. Eles nem sabiam do uso que se fazia desses bens, pois a divisão do trabalho era tal que uma só mulher não fazia uma peça inteira, mas apenas um componente, ou uma ‘flor’, como a chamavam. Esta indústria foi introduzida por missionários no século XIX; com o passar do tempo, várias casas de exportação surgiram na área e ganharam milhões de rúpias com a exploração dessas mulheres (Mies, 1982). 

O outro lado da moeda são os importadores dos países industrializados, hoje principalmente redes de supermercados que incluem o artesanato do Terceiro Mundo em sua seleção de produtos. Num supermercado em Colônia, encontrei rendas feitas à mão de Narsapur lado a lado com rendas feitas à mão da China, ambas a um preço bastante baixo. Isso significa que hoje as mulheres da classe trabalhadora também podem dar às suas casas uma aparência burguesa sofisticada adicionando algumas rendas feitas à mão aos seus móveis, um luxo que antes não era encontrado nessas casas. Assim, as mulheres da classe trabalhadora em nossos países podem pagar um estilo de vida que antes só era possível para o patriarcado burguês, porque as mulheres rurais pobres na Índia produzem essas coisas por um salário inferior ao próprio nível de subsistência. Esse relacionamento prospera com a definição das mulheres como donas de casa em ambas as extremidades do globo.

 Um caso semelhante foi estudado por Carla Risseeuw no Sri Lanka (Risseeuw, 1981), onde as mulheres foram encorajadas a fazer esteiras de coco para exportação. Enquanto a rendeira foi introduzida já no século XIX, a habilidade de fazer esteiras de coco atrativas foi introduzida por um projeto holandês de desenvolvimento para mulheres. A organização do trabalho era semelhante à das rendeiras de Narsapur, mas as fabricantes de tapetes do Sri Lanka montaram uma pequena oficina onde trabalharam juntas. Isso pode ser visto como um avanço no que diz respeito à atomização das rendeiras. Por outro lado, a competição acirrada que deve surgir entre esses produtores atomizados foi talvez ainda mais pronunciada no Sri Lanka do que em Narsapur. Carla Risseeuw enfatiza em seu estudo a dificuldade de organizar essas trabalhadoras. Outra dificuldade que ela menciona é o fato de que, apesar de todos os esforços bem intencionados apoiados pelas mulheres holandesas para organizar um sistema de marketing alternativo para a venda desses tapetes na Holanda e na Europa, o resultado final foi o início das grandes corporações de marketing comercializando essas esteiras. Contra elas, as pequenas lojas do Terceiro Mundo não podiam competir. A conclusão é que esse projeto criou uma nova commodity – novamente, outro item de luxo para residências ocidentais – que foi então integrada à variedade de mercadorias oferecidas pelas grandes redes de supermercados. Para as mulheres produtoras, esse projeto trouxe mais renda em dinheiro, mas também as tornou dependentes dos caprichos e das flutuações do mercado ocidental. Eu não ficaria surpreso se todas as mulheres nos países do Terceiro Mundo que foram mobilizadas nos últimos anos para iniciar alguma produção de artesanato voltada para a exportação fossem severamente afetadas pela crise econômica que afeta os países industrializados hoje. O que farão os presidentes de mesa do Sri Lanka ou as rendeiras da Índia quando as mulheres na Holanda ou na Alemanha não tiverem mais dinheiro para comprar esteiras de coco, ou simplesmente pararem de comprar porque estão fartas de esteiras de coco ou rendas? 

c. Mulheres na Indústria Eletrônica 

Considerando que os exemplos acima ilustram os efeitos da subsunção do trabalho feminino sob o capital por meio de indústrias domésticas, as mulheres que trabalham nas Zonas Livres de Produção na Indonésia, Malásia, Cingapura, Hong Kong, Tailândia, El Salvador, México, Filipinas , etc., estão trabalhando em fábricas reais. Pode-se acrescentar aqui que a indústria doméstica e o sistema de lançamento não se restringem apenas ao artesanato ou aos países do Terceiro Mundo. Com a chamada terceira revolução tecnológica, a mesma organização atomizada do trabalho será utilizada para processos de produção altamente sofisticados. As empresas americanas já estão distribuindo computadores domésticos para donas de casa americanas, que então fazem parte do trabalho para elas da mesma forma que as operárias de renda de Narsapur estão fazendo componentes de renda. Essa ‘revolução tecnológica’, baseada no microchip, é, no entanto, baseada no trabalho de mais de um milhão de mulheres que trabalham nas indústrias eletrônicas no Sudeste Asiático. Enquanto todo mundo fala hoje sobre os efeitos dessa revolução do microchip no mercado de trabalho ocidental – a possibilidade de tirar milhões do trabalho por meio da automação e da informatização – quase ninguém menciona as “mulheres asiáticas ágeis e dóceis” que tornaram tudo isso possível. Rachel Grossman estudou as condições em que essas mulheres trabalham e os mecanismos pelos quais são manipuladas. 

Mulheres asiáticas na indústria de eletrônicos são colocadas em uma linha de montagem global que vai do Vale do Silício, nos EUA, ao sudeste da Ásia. Nessa linha de montagem, as mulheres asiáticas realizam os trabalhos mais monótonos, demorados, estressantes e insalubres. Eles têm que soldar sob um microscópio os fios finos que mantêm os minúsculos chips juntos para torná-los um circuito integrado. Esses componentes eletrônicos são os verdadeiros “cérebros” pelos quais os novos computadores e autômatos são dirigidos. As firmas americanas e japonesas desenvolveram um sistema sutil de controle do trabalho que combina métodos de compulsão direta com métodos de manipulação psicológica. Nem é preciso dizer que a atividade sindical é proibida nessas fábricas. Na Malásia, se descobrimos que as mulheres pertencem a algum sindicato, elas são demitidas.

 As empresas empregam apenas mulheres jovens entre 14 e 25 anos. Quando se casam, geralmente perdem o emprego. Consequentemente, as empresas economizam benefícios de maternidade e sempre têm mulheres jovens e inexperientes que recebem algum treinamento rápido no trabalho. As mulheres precisam completar uma determinada cota de fichas por dia. Uma mulher de uma fábrica de semicondutores em Penang, Malásia, disse que todas as trabalhadoras tinham que completar 700 chips por dia, que não tinham permissão para falar durante o trabalho, que não tinham permissão para se afastar do local de trabalho, que não havia intervalos. Os supervisores criticavam constantemente as trabalhadoras. Oito horas de trabalho nos microscópios causariam dores nos olhos e nervosismo (Frobel et al, 1977: 593). Cada mulher tinha uma mesa ao seu lado onde deveria cumprir sua cota diária de trabalho. As mulheres nas fábricas individuais são constantemente colocadas umas contra as outras em competições de produtividade para aumentar sua cota. Uma mulher que não consegue cumprir a meta diária é demitida ou tem que trabalhar horas extras. A mulher citada anteriormente disse: ‘Eles nos tratam como lixo’. Ao mesmo tempo, as empresas manipulam as mulheres de uma forma muito desagradável como símbolos sexuais. Nos fins de semana, eles não só organizam bazares de cosméticos onde as mulheres são incentivadas a gastar seu suado dinheiro em batons, maquiagem, cremes etc., para emular as mulheres glamourosas do Ocidente projetadas pela mídia e em filmes , mas também organizam concursos de beleza em suas empresas, onde as mulheres competem entre si pelo título de rainha da beleza de sua empresa. Depois de um desses concursos de beleza, a revista da empresa publicou a seguinte declaração: ‘Nossa última vencedora do concurso de beleza da empresa gastou 40 dólares em seu vestido de noite, mas ela fez tantas fendas para mostrar as pernas que não pode mais usar o vestido ‘(Grossman, 1979). 

As empresas organizam concursos de canto e costura e as fotos das vencedoras são publicadas em suas revistas. Dessa forma, as trabalhadoras não só ficam totalmente sob controle da empresa em suas horas de trabalho, mas também nos momentos de lazer. A empresa se apresenta como uma grande família com o empresário branco ou japonês como a figura paterna que beija a vencedora do concurso de beleza. Suas estruturas e atitudes patriarcais não são simplesmente usadas e fortalecidas, a ‘submissão da mulher asiática’ não só é usada para atrair capital ocidental ou japonês para esses países, qualquer que seja a forma tradicional de patriarcado, o novo patriarcado tem claramente metas e objetivos capitalistas, bem como formas de expressão. As mulheres asiáticas nas Zonas Livres de Produção não são vistas principalmente como trabalhadoras, mas como mulheres. Em contraste com as mulheres nas indústrias domésticas, elas são, desta vez, definidas principalmente como símbolos sexuais. Isso mostra como toda essa mobilização das mulheres asiáticas para a produção para o mercado mundial está ligada ao que chamo de nexo da prostituição.

O outro lado: 

O outro lado do DIT, neste caso, não significa apenas que milhões de mulheres (e homens) no Oeste que já estão perdendo – e irão perder cada vez mais – seus empregos nas indústrias mecânica e eletrônica, e ainda mais no setor terciário com a introdução de computadores, autômatos, compositores de texto, etc., mas também que as mulheres serão mobilizadas como donas de casa, consumidoras e símbolos sexuais na estratégia de marketing para a venda de todas essas coisas. É uma das esperanças dos planejadores econômicos e políticos de hoje que a crise na economia seja novamente controlada e um novo ciclo de acumulação iniciado por essas novas tecnologias que, espera-se, será comprado por cada família no Ocidente nos próximos anos. Espera-se que até 1990 a cada duas residências tenham um computador doméstico, que as donas de casa tenham fornos informatizados, façam suas compras pelo computador, enviem suas cartas por telex etc. Uma das maiores expectativas é em relação à indústria do vídeo. Espera-se que os vídeos e aparelhos substituam em grande parte a velha TV, de modo que, como foi dito recentemente, todo marido é o diretor do programa de sua família. O que isso significa para as mulheres do Ocidente? Na Alemanha Ocidental, uma recente discussão na TV sobre a nova onda de vídeo revelou que 40 por cento de todos os filmes de vídeo são filmes de terror e guerra, 30 por cento são os chamados filmes de ação, em que carros esmagam outros carros, etc., 12 por cento são filmes pornográficos, e o resto é sobre educação, cultura, etc. Se adicionarmos os filmes de terror aos filmes pornográficos – porque as mulheres, cada vez mais ‘negras’, as mulheres são as vítimas de violência sexista e sádica em ambos os tipos – pode-se imaginar a extensão da violência contra as mulheres que já é, e será cada vez mais, o resultado desta integração das mulheres ao desenvolvimento capitalista. A própria violência contra as mulheres torna-se uma nova mercadoria. Nesse estágio, também deve ficar claro para as mulheres no Ocidente que esse tipo de desenvolvimento, esse tipo de progresso tecnológico, esse tipo de riqueza prometida não é e nunca poderá ser do interesse das mulheres. Pois as mulheres estão sendo usadas aqui da maneira mais cínica e sádica para criar novas ‘necessidades’ para os homens já frustrados em nossas sociedades e para manter o mercado já saturado funcionando. 

d. Turismo sexual e o internacional dos proxenetas 

A manifestação mais flagrante da combinação do novo DIT com a divisão neo-patriarcal ou sexista do trabalho é o turismo sexual. O turismo em países do Terceiro Mundo, especialmente na Ásia, tornou-se uma indústria em crescimento na década de 1970 e continua a ser propagado como estratégia de desenvolvimento por agências de ajuda internacional. Na verdade, essa indústria foi planejada e apoiada pela primeira vez pelo Banco Mundial, o FMI e os US- AID. Entre 1960 e 1979, as chegadas de turistas no Sudeste Asiático aumentaram 25 vezes e os países da região que abriram suas portas aos turistas, principalmente do Oeste e do Japão, “arrecadaram mais de quatro bilhões de dólares turísticos em 1979” ( Wood in South-East Asia Chronicle, no. 78). Mas não apenas Hong Kong, Tailândia, Malásia, Filipinas e Cingapura fizeram do turismo uma de suas principais áreas de produção de exportação, mas muitos outros países do Terceiro Mundo seguiram, por exemplo, Quênia, Tunísia, México, países do Caribe, Sri Lanka, Peru, etc. O principal produto de exportação que, talvez mais do que praias ensolaradas, tem atraído fluxos de turistas do sexo masculino do Japão, Estados Unidos e Europa, são as mulheres asiáticas, africanas e latino-americanas. Particularmente, os governos tailandês e filipino estão oferecendo suas mulheres como parte do pacote turístico. Assim, o Vice-Primeiro Ministro da Tailândia instou os governadores provinciais em outubro de 1980 a contribuírem para o esforço nacional de turismo, desenvolvendo locais cênicos em suas províncias, ao mesmo tempo em que encorajava ‘certas atividades de entretenimento que alguns de vocês podem achar nojentas e constrangedoras por estarem relacionadas com prazeres sexuais ‘(Santi Mingmongkol em South-East Asia Chronicle, no. 78:24). De acordo com Pasuk Phongpaichit, cerca de 200.000 a 300.000 mulheres estão trabalhando na indústria do sexo em Bangkok, camufladas como casas de massagem, casas de chá e hotéis (Phongpaichit, 1982). Oficialmente, a prostituição foi proibida na Tailândia desde 1960. De acordo com outra estimativa, cerca de 10 por cento das mulheres de Bangkok estão trabalhando nesta indústria (Santi Mingmonkol em South-East Asia Chronicle, no. 78). Em Manila, estima-se que o número de prostitutas seja de 100.000. 

A prostituição também é legalmente proibida no Quênia. Mas o governo faz questão de atrair turistas do Oeste e fecha os olhos para o que está acontecendo nas famosas praias. Raros são protestos, como o de um parlamentar que acusou os alemães e, em particular, os suíços de terem feito das províncias costeiras a sua província neocolonial do sexo, não tiveram consequências no que se refere ao turismo. Muito dinheiro está envolvido, do qual a elite governante também recebe sua parte (Tourismus Prostitution Entwicklung, 1983: 52). 

A estreita conivência entre a indústria do turismo, a indústria do sexo e o governo é ainda mais flagrante nas Filipinas, onde os parentes e parceiros de negócios do presidente Marcos e sua esposa Imelda estão entre os principais beneficiários da bonança turística (Linda Richter: South -East Asia Chronicle, nº 78: 27-32). 

Como é bem sabido, as mulheres do sudeste asiático foram transformadas pela primeira vez em prostitutas em grande escala no contexto da guerra do Vietnã e do estabelecimento de bases aéreas e navais americanas na região do Pacífico. Os três países que atualmente constituem os centros de turismo sexual do Sudeste Asiático, Tailândia, Filipinas e Coreia do Sul, tiveram uma presença maciça de soldados americanos a partir de meados da década de 1960. Não apenas as mulheres vietnamitas se tornaram prostitutas para o exército dos Estados Unidos; as bases militares americanas na Tailândia eram cercadas por bares, bordéis, boates e casas de massagem onde milhares de mulheres trabalhavam na ‘Indústria de Repouso e Recreação’ para soldados americanos. A maioria dos estabelecimentos militares americanos ficava no norte da Tailândia, e muitas meninas foram recrutadas entre os pequenos camponeses da região. Quando as tropas americanas se retiraram em 1976, a maioria dessas mulheres foi para Bangcoc e continuou a trabalhar no “setor de serviços” da sauna, mas agora para turistas europeus, japoneses e americanos. 

Um desenvolvimento semelhante ocorreu nas Filipinas, onde a Base Naval Americana de Subic Bay em Olongapo e a Base da Força Aérea de Clark em Angeles deram origem a uma rápida expansão da indústria de R&R, a tal ponto que a economia dessas cidades experimentou um tremendo boom entre 1964 e 1973. O fim da guerra do Vietnã significou uma certa desaceleração do crescimento da indústria de R&R, mas a base militar de Subic Bay também tornou-se uma área de crescimento para o desenvolvimento industrial propriamente dito. A ‘Autoridade Nacional de Desenvolvimento Econômico’ convidou capital estrangeiro a investir nesta área. A empresa japonesa Kawasaki estabeleceu um estaleiro aqui. Assim, o capital industrial imperialista segue os militares imperialistas, ambos, porém, fortalecem a indústria do sexo. Os planejadores da autoridade de desenvolvimento da cidade estimam que a indústria de R&R continuará sendo o maior complexo industrial da área, mesmo depois que os fuzileiros navais dos EUA deixarem Subic Bay em cerca de 20 anos (Moselina, 1981). 

A estreita ligação entre a capital, os militares e a exploração das mulheres asiáticas também é ilustrada pelo seguinte relato pessoal de um engenheiro peruano que trabalhava para uma empresa americana em um canteiro de obras militares na Arábia Saudita. Devido a requisitos de segurança, os trabalhadores foram totalmente isolados dos arredores. A cada quinze dias eles voavam para Bangkok, onde as mulheres tailandesas que trabalhavam em casas de massagens e bares tinham que atendê-los sexual e emocionalmente. Esse homem estava entusiasmado com as mulheres tailandesas que, segundo ele, não eram simplesmente prostitutas que vendiam sexo por dinheiro, mas davam aos homens o que eles dificilmente encontrariam no Ocidente, ou seja, o amor. Ele não perguntou por que essas mulheres estavam vendendo ‘amor’ para homens como ele ou para turistas da Alemanha Ocidental, Suíça, EUA ou Japão. A maioria delas são filhas de camponeses pobres que se endividaram ou perderam suas terras durante o movimento de modernização dos planejadores nacionais. Muitos dos pais endividados dão suas filhas – muitas vezes ainda crianças – a algum agente contra uma certa quantia de dinheiro. Esses agentes levam as meninas para algum estabelecimento onde têm que trabalhar virtualmente como escravas para esse agente ou para o proprietário até que o empréstimo seja reembolsado. Normalmente, eles nem sabem quando é esse o caso. A maioria dos chamados massagistas de Bangkok mandam a maior parte de seu dinheiro de volta para suas famílias (Phongpaichit, 1982). Os clientes das mulheres do Sudeste Asiático, africanas – e cada vez mais também latino-americanas – que trabalham nesta indústria em crescimento não são apenas os empresários e burocratas da Europa, dos EUA e do Japão, e das elites asiáticas. Muitos turistas sexuais ocidentais são trabalhadores ocidentais comuns que consideram seu direito passar as férias e seu dinheiro nas praias ensolaradas de países do Terceiro Mundo e comprar mulheres exóticas para si. Dos dois milhões de turistas que visitaram a Tailândia entre 1970 e 1980, 71,1% eram homens. 

Uma mulher vietnamita, que voou para Bangkok, descreveu a estranha situação no avião, onde se sentou entre homens alemães – alguns trabalhadores, alguns empresários – que falavam um inglês quebrado com um sotaque tailandês que devem ter aprendido nos bares da Tailândia . 

Outra dimensão dessa indústria é o mercado de casamento de mulheres asiáticas ou latino-americanas, estabelecido por empresas privadas, principalmente na Alemanha Ocidental. Essas firmas anunciam abertamente mulheres asiáticas “submissas, não emancipadas e dóceis” em seus prospectos e até mesmo nas colunas matrimoniais de jornais respeitáveis. O alemão Karl-Heinz Kretschmann, que mantém um Kontakt Club alemão-filipino, anuncia as filipinas não apenas como sexy, mas também como baratas: uma empregada doméstica custa não mais do que 30 marcos e sua comida por mês. Por que então comprar uma máquina de lavar cara? ‘ Todos os institutos de “casamento” ou “parceiro” garantem a seus clientes homens que, com as mulheres asiáticas, o homem pode ter a certeza de permanecer o mestre e o senhor. Ele pode ‘manter as calças’. Um cliente escreveu: “Depois de dois casamentos desfeitos com mulheres alemãs, estou farto de nosso emanzen alemão” (gíria para “mulher emancipada”) (Schergel, 1983). 

Além da submissão, os alemães são atraídos pela orientação familiar e pelo caráter não exigente das Filipinas. Um cliente escreveu: 

“Muitos homens alemães querem uma filipina porque as mulheres alemãs estão mais interessadas em seu trabalho e carreira do que na família. As Filipinas colocam a família acima de tudo e não são tão materialistas quanto as mulheres alemãs” (Schergel, 1983; trad. MM). 

Um alemão comum – mesmo sem emprego – pode encomendar uma dessas mulheres asiáticas por catálogo. Se ele estiver satisfeito com ela, pode ficar com ela; do contrário, pode mandá-la de volta ou mandá-la para os bordéis de Frankfurt, Hamburgo ou Berlim. Em uma vila perto de Hamburgo, um pedreiro desempregado encomendou duas mulheres asiáticas por DEM 9.000 (Marco alemão). Seu ‘investimento’ trouxe grandes dividendos porque ele as forçou à prostituição. Em uma pequena cidade no distrito de Ruhr, um clube de boliche encomendou uma mulher asiática, que antes era casada com um dos homens, mas tinha que servir a todos eles sexualmente. Muitos homens alemães também casam-se diretamente na Tailândia ou nas Filipinas. O embaixador alemão em Bangkok afirmou que um grande número de alemães que vieram a Bangkok como turistas se casaram com mulheres tailandesas. Ele declarou que o único propósito desses casamentos era levar essas mulheres para a Alemanha e forçá-las à prostituição (Ohse, 1981). O que é notável nesta declaração é o fato de que a embaixada alemã em Bangkok obviamente não cria grandes problemas para os homens alemães se eles querem “se casar” com uma mulher tailandesa. Segundo uma comunicação pessoal, as mulheres tailandesas casadas com homens alemães obtêm vistos sem grandes dificuldades. Isso contrasta totalmente com as regras e a prática seguida quando as mulheres alemãs se casam com homens asiáticos, turcos ou africanos que podem ter vindo para a Alemanha em busca de asilo político, que desejam empregos ou que podem ter conhecido em seus países. No caso deles, geralmente é assumido que se trata de casamentos falsos. O casal tem de ser submetido a longas investigações e muitas vezes é negada ao homem uma autorização de residência ou visto. Porque homens exóticos como trabalhadores não são desejados na Alemanha, mas mulheres exóticas estão obviamente em grande popularidade e na indústria do sexo, que constitui um dos setores em crescimento nos países ocidentais. Portanto, o estado da Alemanha Ocidental também aplica dois critérios no que diz respeito ao comércio de carne de países do Terceiro Mundo. 

O outro lado:

O outro lado da história é o fato de que os homens dos países industrializados ricos, mesmo em uma época de crise econômica, ainda têm dinheiro suficiente à sua disposição – especialmente se o gastam em países de moeda suave – para pagar férias em países do Terceiro Mundo e comprar mulheres exóticas como mercadoria. A fixação dos homens ocidentais, em particular dos alemães, em carros e em suas férias sexuais exóticas é tão forte que os governos fazem tudo o que podem para fornecer, esses dois bens de consumo de massa mais importantes a um preço razoavelmente baixo. Um governo que privasse os trabalhadores alemães de seus carros e férias logo seria derrubado. 

Assim, na ‘Internacional dos Proxenetas’, os governos não apenas dos países do Terceiro Mundo, mas também dos países ricos, desempenham um papel importante. O papel mais importante, embora quase invisível, nesta indústria de exportação é, no entanto, desempenhado por empresas turísticas multinacionais (como Neckermann ou TUI na Alemanha Ocidental), as cadeias de hotéis (Hilton International, Holiday Inn, Intercontinental Hotel Corporation, Sheraton, Hyatt, etc.), companhias aéreas e uma ampla gama de setores e serviços relacionados. É significativo que quase não haja dados concretos disponíveis sobre os lucros que essas empresas obtêm com o turismo sexual e o comércio de carne. Eles preservam sua aparência de empresas “decentes” e “limpas”; no entanto, não se pode negar que não há apenas ligações diretas estreitas entre os diferentes ramos deste setor – por exemplo, Intercontinental Hotel Corporation é uma subsidiária da Pan Am (Wood in South East Asia Chronicle, no. 78) – mas também que a maior parte dos lucros obtidos com o turismo sexual não fica nos países do Terceiro Mundo, mas vai para os países onde essas empresas multinacionais estão localizadas (Tourismus Prostitution Entwicklung, 1983: 47-49). Com as novas tendências para a produção de ‘mercadorias não materiais’ – porque nossos mercados já estão transbordando de bens materiais – pode-se esperar que o comércio de carne das mulheres do Terceiro Mundo para os países industrializados aumente. O que também vai aumentar são as tendências sexistas, racistas e sádicas mais abertas neste mercado. O racismo sempre foi parte integrante deste negócio, desde o início do colonialismo até o presente. Cada vez mais as mulheres “negras” ou “marrom” são desejadas não apenas por causa de seu apelo sexual exótico, mas porque podem ser transformadas em objetos de sadismo e violência. A indústria do vídeo prospera com a violência contra as mulheres, muitas das quais são mulheres de cor. Os tabus contra a tortura e a violência contra as mulheres foram quebrados pela primeira vez em relação às mulheres de cor. Agora, as mulheres brancas também são cada vez mais “dadas de graça” para a satisfação do apetite aparentemente irresistível dos homens brancos pela crueldade sexual. 

Na Internacional dos proxenetas, formada por capitais internacionais e nacionais, os governos local e ocidental, os militares e os pequenos, não se deve esquecer o papel desempenhado pelos turistas ditos ‘vanguardistas ou alternativos’, aqueles que o fazem não querem ficar em grandes hotéis, mas abrir com seu ‘turismo de mochila’ novas áreas e novos campos para a exploração sexual. Freqüentemente, foram esses turistas de vanguarda e guias de viagens alternativos que ousaram quebrar os tabus locais e ocidentais primeiro, por exemplo, tomando banho nu nas praias de Goa ou dando dicas aos turistas que queriam encontrar ‘terras virgens ainda não poluídas ‘npor sua fome de sexo e aventura. Enquanto há alguns anos os autores de guias de viagem alternativos à Ásia ainda admiravam seus clientes por mostrar respeito pela cultura do povo local e tratar as mulheres como seres humanos, muitos deles agora estão oferecendo dicas, geralmente recebidas de viajantes globais, como para onde encontrar as mulheres mais jovens e mais baratas da Ásia. Os seus clientes são os turistas ‘alternativos’, na sua maioria jovens e com pouco dinheiro. Mas muitas vezes são eles que criam novas necessidades e modas (Frankfurter Rundschau, 24 de novembro de 1984). 

Muitas organizações de homens começaram a protestar contra a exploração de mulheres do Terceiro Mundo por homens ocidentais e japoneses. Mas, com toda a indignação moral que alguns deles expressaram, especialmente as organizações da Igreja, eles não atacam a causa raiz desta manifestação mais flagrante do novo DIT. Na documentação emitida pelo Center for Development-Oriented Education, uma organização patrocinada pela igreja protestante (Tourismus Prostitution Entwicklung, 1983), várias ações são propostas para combater o turismo sexual. Mas o turismo do Terceiro Mundo como estratégia de acumulação de capital não é denunciado e criticado. Nem é rejeitada a Divisão Internacional do Trabalho, que integrou a exploração racista, sexista e sádica das mulheres do Terceiro Mundo em sua estratégia de desenvolvimento, nem a divisão sexual capitalista do trabalho, pela qual as mulheres são universalmente definidas como donas de casa “dependentes” e objetos sexuais . É precisamente a interação e manipulação objetivas dessas duas divisões do trabalho que constituem a base da exploração sexual. Enquanto as mulheres no Ocidente e nos países do Terceiro Mundo ficarem apenas moralmente aborrecidas com o uso flagrante e desumano de mulheres pobres do Terceiro Mundo por homens de países e classes ricos, sem atacar abertamente o modelo de crescimento capitalista nacional e internacional, elas objetivamente subscrevem às justificativas apresentadas pelos pioneiros americanos da indústria de R&R na base militar de Olongapo nas Filipinas: ‘Em vez de expor nossas mulheres decentes ao possível perigo de ser estupradas ou a outras formas de abuso sexual, é melhor fornecer uma válvula de escape para o impulso sexual do fuzileiro naval e ao mesmo tempo ganhar dinheiro ”(Mosclina, 1983: 78, trad. MM). 

Enquanto a ‘decência’ da dona de casa de classe média americana, europeia, japonesa ou tailandesa ou filipina for baseada no ‘abuso’ de mulheres pobres na Ásia ou em seus próprios países, enquanto as mulheres em todo o mundo o fizerem não rejeitando este conceito de decência que, como muitas vezes se disse, implica prostituição, o capital poderá usar esta divisão sexual e internacional das mulheres “para ganhar dinheiro”. 

Conclusão 

Se olharmos para a nova divisão internacional do trabalho do ponto de vista das mulheres, da libertação das mulheres, podemos agora dizer que é sempre necessário olhar para os dois lados da moeda, para compreender como as mulheres ambas as extremidades do globo estão divididas e, no entanto, efetivamente ligadas entre si pelo mercado mundial e pelo capital internacional e nacional. Nessa divisão, a manipulação das mulheres como produtoras invisíveis no Terceiro Mundo e como consumidoras atomizadas, visíveis, porém dependentes (donas de casa) desempenha um papel crucial. Toda a estratégia é baseada em uma ideologia patriarcal, sexista e racista das mulheres que as define basicamente como donas de casa e objetos sexuais. Sem esta manipulação ideológica combinada com a divisão estrutural das mulheres por classe e colonialismo, esta estratégia não seria lucrativa para o capital. Também podemos observar que cada vez mais as mulheres como objetos sexuais são usadas para a expansão de mercados estagnados nos países industrializados. Nessa estratégia, os homens desempenham um papel decisivo como ‘agentes do capital’ (M ies, 1982). Esse papel, no entanto, deve ser diferenciado de acordo com a classe, bem como com a raça e a localização na divisão internacional do trabalho. Não só os GRANDES HOMENS BRANCOS ou o Mr CAPITAL lucram com a exploração de suas próprias mulheres e das mulheres do Terceiro Mundo, mas também os pequenos homens brancos, os trabalhadores. 

Não apenas os grandes pardos ou negros lucram com a exploração de suas mulheres, mas também os pequenos negros ou pardos. E as grandes e pequenas mulheres brancas também participam do lucro da exploração dos pequenos homens e mulheres pardos e negros nas colônias. O mesmo acontece com as grandes mulheres pardas ou negras nas colônias que aspiram ao status de verdadeira dona de casa ocidental como um símbolo de progresso e que foram descobertas como promotoras do capitalismo do Terceiro Mundo. 

Mas, ao contrário dos homens, as mulheres – sejam brancas ou negras – são cada vez mais obrigadas a pagar abertamente com sua dignidade humana e sua vida pela ‘honra’ de ser prostituta ou dona de casa. Assim, acho que as mulheres dos países ricos não têm nenhum interesse objetivo na manutenção desse sistema integrado de exploração chamado Nova Ordem Internacional, em que as mulheres pobres do Terceiro Mundo (camponesas pobres e mulheres urbanas marginalizadas) constituem o fundo, porque são essas mulheres. que são a ‘imagem do futuro’ (v. Werlhof, 1983) também para as mulheres nos países industrializados. Este futuro já começou para muitas mulheres nos EUA e na Europa que estão ‘integradas ao desenvolvimento’ da mesma maneira e pelos mesmos métodos que foram aplicados às suas irmãs do Terceiro Mundo, ou seja, trabalhar ‘invisivelmente’ no novo setor informal , e se prostituírem de várias maneiras para ganhar a vida.

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