Olhando a luta de classe pelo viés das mulheres.


1° de maio é o dia do trabalhador, essa data marca a luta dos trabalhadores por direitos em todo o mundo. Geralmente há atos nas ruas, com os sindicatos organizados, pedidos de greve e  ações contra os governos capitalistas. Fala-se muito sobre a condição precária dos trabalhadores, do ataque aos sindicatos, e de como o neo-liberalismo está destruindo a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). 

Mas uma questão sempre segue apagada: e as mulheres? Porque não se fala das mulheres trabalhadoras? Até quando a esquerda tradicional irá evitar o  fato inegável de que as mulheres, não os homens, são a principal força de trabalho mundial.

A socióloga alemã Maria Mies explica, em seu livro “Patriarcado e Acumulação numa escala global”, o porquê dessa realidade :

               

“2. As mulheres são a força de trabalho ideal porque agora estão sendo universalmente definidas como “donas de casa”, não como trabalhadoras; isso significa que seu trabalho, seja no valor de uso ou na produção de mercadorias: é obscurecido, não aparece como “trabalho livre assalariado”, é definido como uma “atividade geradora de renda” e pode, portanto, ser comprado a um preço muito mais barato do que o trabalho masculino .

3. Além disso, ao definir as mulheres universalmente como donas de casa, é possível não apenas baratear seu trabalho, mas também obter controle político e ideológico sobre elas. As donas de casa estão atomizadas e isoladas, sua organização do trabalho dificulta muito a consciência de interesses comuns, de todo o processo de produção. Seu horizonte permanece limitado pela família. Os sindicatos nunca se interessaram pelas mulheres donas de casa. “

Sabemos que dois terços de todo o trabalho produzido no mundo são feitos por mulheres, e ainda sim temos de ouvir que somos nós, mulheres feministas, que dividimos a “luta de classes”. Ora, pelo contrário, são os homens que dividem a luta de classes, ao ignorar que a luta do feminismo é a luta de classes; são eles que ignoram os fatos, e fingem que as mulheres não são a verdadeira força explorada dentro do capitalismo.

A pandemia está sendo um exemplo de como as mulheres são a principal força de trabalho do capitalismo, uma vez que são as mulheres as que ocupam os cargos de cuidado, tanto no trabalho formal – como enfermeiras e cuidadoras de idosos – quanto no trabalho informal, dentro de casa, cuidando dos idosos da família, das crianças e dos parentes doentes. 

A exploração sexual-reprodutiva das mulheres, incluindo a maternidade compulsória e os rituais de feminilidade, retira delas tempo e energia, empurrando-as em massa para o trabalho informal, parcial e mal remunerado, além de contribuir para um afastamento das discussões políticas e da produção científica.  O resultado dessa conjuntura são mulheres sujeitadas à pobreza pelo subemprego ou desemprego; à maior exposição ao vírus nos trabalhos de cuidado precarizados; à sobrecarga de obrigações e responsabilidades e, por fim, ao adoecimento físico e mental.


Esse trabalho não pago equivale a um valor anual de 11% do produto interno do país. Quem ganha com essa exploração é o capital, com uma mão de obra barata que troca faxina por comida e que, quando não consegue mais vender a sua força de trabalho, se prostituir. 

A prostituição é um importante ponto de exploração das mulheres. Maria Mies, em “Patriarcado e Acumulação em uma escala global”, detalhacomo a prostituição, o turismo sexual e o tráfico de mulheres são importantes para as economias de países estagnados ou em crises. Os países se beneficiam diretamente dos turistas dos países ocidentais que procuram o turismo sexual, e esses países até estimulam esse tipo de viagem. Nas palavras do Bolsonaro


“[O Brasil] “não pode ser o país do turismo gay, mas se alguém quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”

A pandemia ainda está deixando bem claro que as mulheres são a maioria no trabalho informal, as que recebem menos, as que sofrem com maiores taxas de desemprego. Esses dados são mais discrepantes com as mulheres negras, que estão na base da pirâmide da força de trabalho, mas são as que ocupam os cargos que estão sendo mais afetados pela pandemia, como a de faxineiras, auxiliares de limpeza e domésticas.

Todavia, mesmo as mulheres que estão em profissões mais elevadas, como promotoras, advogadas e magistradas, estão perdendo espaço nos locais de trabalho, da mesma forma  mulheres pesquisadoras

E mesmo assim as empresas continuaram lucrando na pandemia, por meio da  precarização do trabalho e do trabalho doméstico e de cuidados, feitos de graça pelas mulheres ou com um pagamento irrisório. 


A verdadeira mão de obra do capitalismo são as mulheres  – e não os homens, portanto a luta de classes tem de ser focada no feminismo e não o contrário. Se o patriarcado surgiu antes e o capitalismo o inseriu dentro de suas relações, para aumentar o abismo da submissão das mulheres pelos homens, porque sempre consideramos a luta de classes pelo viés masculino? 

Aqui proponho que toda a discussão da luta de classes seja sempre a partir do viés feminino, onde as demandas das mulheres são as principais para que de fato o capitalismo venha a ter o seu fim. É somente com a libertação da classe feminina que o capitalismo irá acabar. Ao contrário do que os “companheiros” marxistas têm dado a entender, ao dizer que são as mulheres que têm de se inserir na luta de classes, são os homens que devem se inserir na luta pela libertação das mulheres. 


Não são as feministas que dividem a classe trabalhadora, são os homens trabalhadores que insistem em dividir as mulheres e afastá-las da verdadeira luta contra o capitalismo, que é a destruição da divisão sexual do trabalho.

A violência doméstica, a mutilação genital feminina, a prostituição, os feminicídios em nome da “honra masculina” e a amarração dos pés feitas pelas chinesas, não são violências criadas pelo capitalismo. Na verdade, essas práticas surgiram bem antes, mas o capitalismo se beneficia amplamente dessas violências.

Neste 1º de maio precisamos nos conscientizar sobre a situação das mulheres, precisamos entender que  nossa condição de subalternidade não  se deve  somente  em razão do capitalismo e da nossa exploração como mão-de-obra mas, principalmente, porque somos mulheres e os homens aprenderam a nos explorar.  

A luta tem de ser contra o patriarcado, pois ao acabar com a divisão de classes sexuais iremos efetivamente acabar com a divisão que leva as mulheres a serem a classe trabalhadora mais explorada dentro do capitalismo. 

Referências


Maria mies – Patriarchy and Accumulation On A World Scale: Women in the International Division of Labour. London: Zed Books (1999)

https://www.geledes.org.br/as-mulheres-estao-no-centro-da-crise-humanitaria-da-pandemia/

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