Espartilhos, maquiagens e Barbies: como as mulheres têm dificuldade em perceber as suas opressões.

A coletiva feminista radical Perseguidas recentemente fez uma campanha chamada “#TireOEspartilho”, baseada na ação de mesmo nome das feministas radicais da Coréia do Sul. Elas lançaram um texto, explicando toda a questão da imposição da feminilidade e da necessidade de nós, enquanto mulheres feministas, rompermos com ela. Uma maneira simbólica de fazer isso é quebrando a maquiagem, um dos vários símbolos de nossa opressão dentro do patriarcado. 

Entretanto, o que deveria ser visto como um grito de libertação das mulheres, se tornou uma sucessão de ataques à campanha. Não somente de pessoas da direita religiosa (o que já é esperado), mas também de uma parcela de pessoas que se dizem feministas e progressistas. Mulheres que defenderam com determinação que a maquiagem é uma questão de “saúde mental”, e até uma questão racial, já que para algumas as marcas fazerem maquiagem que abarca os tons de pele das mulheres negras é um grande avanço para a luta do movimento negro. Aqui se faz necessário pontuar: a luta racial nunca teve relação com rituais de feminilidade.

Fomos surpreendidas uma vez que, enquanto feministas, é bem óbvio que a feminilidade é um problema a ser combatido, e que, apesar de entendermos que o dito “feminismo liberal” é nada mais que a ideologia patriarcal fantasiada de luta feminina, não imaginávamos que as mulheres que se dizem progressistas iriam reagir com tamanha agressividade à uma campanha que fala sobre libertação.

Compreendemos que a feminilidade está impregnada em nossas vidas, afinal são 5 mil anos de patriarcado e, portanto, 5 mil anos de imposição de rituais cosméticos e de comportamento às mulheres. Mas está na hora das feministas voltarem a lerem certos clássicos como O segundo sexo da Simone de Beauvoir e a A mística feminina da Betty Friedan, assim como os atuais a exemplo de “Beleza e Misoginia” da Sheila Jeffreys.

Toda essa comoção contra uma ação tão simples como quebrar maquiagens, nos lembrou uma ação que nós da GARRa Feminista fazemos chamada: “Oficina de destruição de Barbies”. A oficina consiste em duas rodadas: na primeira parte distribuímos imagens das partes de corpos femininos como rosto, seios, barriga, pernas e afins recortados de revistas de moda, e pedimos para as mulheres fazerem um relato sobre a imagem que ela tem em mãos. Na primeira edição dessa oficina, que foi em setembro de 2014, durante um evento na UFMG, tivemos uma diversidade de mulheres, desde jovens com 17/18 anos até senhoras de 60 anos. Todas vinham com histórias semelhantes de como foram instruídas a agirem de uma certa maneira, usar certos adereços, roupas e ter uma maneira de falar. Enfim, foram impostas à feminilidade.



Histórias comuns aconteceram também nas outras edições, essas ocorreram anualmente durante o Sapaday, o festival de cultura lésbica que a Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH realiza desde de 2016. Nessas oficinas, as mulheres são em sua grande maioria lésbicas ou bissexuais, e vemos nos relatos que há também uma parcela da lesbofobia que elas sofrem, e de como a construção da infância de todas é sempre de imposição desses ritos. 

Na segunda parte da oficina oferecemos às mulheres bonecas Barbies (não as de verdade, porque aqui ninguém é rica), apresentamos alguns dados sobre a boneca: ela ter sido criada tendo por base uma personagem que foi uma mulher prostituída em uma história de quadrinhos pornográfica, que com as medidas da barbie uma mulher normal sofreria graves problemas de saúde, destacando o quão irreal é aquela boneca  em comparação à uma mulher de verdade. Então, oferecemos às mulheres uma série de ferramentas para que possam destruir aquele símbolo: tesouras, estilete, tinta e até álcool e fósforo para aquelas que desejassem queimá-las. Essa parte geralmente é quando as mulheres têm as emoções mistas, a maior parte ama essa possibilidade de fazer algo que nunca puderam ou sequer pensaram, em 2014 as mulheres todas se juntaram para queimar as barbies juntas, e formou-se um círculo em volta da fogueira de bonecas, algo que para todas nós foi simbólico e forte.

Entretanto, nas oficinas de caminhada apareceram questões interessantes de pontuar: 

  1. Algumas mulheres se sentiam mal por destruir aquele pedaço de plástico de baixa qualidade que tinha uma forma que se assemelha a uma mulher, só que dentro de uma estética irreal. Elas no máximo cortavam os cabelos, ou faziam uns rabiscos, mas nenhum tipo de destruição ocorria. E aí tinha o questionamento: por quê?

Simone de Beauvoir fala no livro “O segundo sexo” como a mulher durante a infância recebe uma boneca, e nessa boneca ela coloca a sua imagem e construção do “outro”, ou seja do feminino. Assim a menina muda de roupa, cuida como se fosse um bebê, porque aquela boneca é a representação não somente dela, mas do que é esperado dela futuramente, ser feminina e mãe. A infância de muitas meninas é marcada pela presença da boneca, criamos o nosso mundinho e nos colocamos naquele brinquedo. O ato de destruir ela, parece então quase que uma agressão a nós mesmas, parece que estamos atacando mulheres de verdade. É esse o nível da nossa prisão dentro da feminilidade. 

  1. Houve uma mulher em específico que achou um absurdo a ideia de que feminilidade seria ruim e que destruir barbies então era desnecessário, era uma mulher que se sentia representada pela maquiagem e todos esses símbolos. Ela ficou sentada ouvindo os relatos, as mulheres desfeminilizadas destruindo as barbies com prazer, ficou incomodada e foi embora. Não quis sequer participar. 

Cada uma de nós está em um estágio, há mulheres que mesmo tendo acesso as críticas ainda preferem se manter dentro desse padrão, porque sair dele significa estar exposta a agressões, olhares de ódio, e ataques, como o que ocorreu com as várias mulheres que fizeram a ação do #TireOEspartilho no twitter. 

Usar maquiagem, mesmo com a desculpa de que é “arte” não é de forma alguma feminista, é apenas uma conformidade aos papéis que somos impostas.Mas não se enganem, só porque as mulheres estão se submetendo a o que é esperado delas, dentro do patriarcado, não que dizer que elas estão livres da misoginia, esse sentimento de estar em conformação é um falso véu de segurança. 

A maquiagem é uma forma de violência, uma vez que ela é colocada como uma obrigação e tolerar essa violência para “ser aceita” não as afasta daquelas que não se submetem, apenas mascara a forma com que essa agressão chega até uma em relação a outra. Ser subjugada pela feminilidade não vai te proteger de nada. 

Não há motivo para continuarmos usando esses símbolos de opressão.

Como a Sheila Jeffreys coloca: 

“(…) A Feminilidade não é a oposição da Masculinidade, mas seu produto. Ela foi inventada para nos fazer aceitar a nossa própria opressão, e assim legitimar e perpetuar a Masculinidade. (…)”


Tire o espartilho, quebre a sua maquiagem, destrua as suas barbies, não importa como você expresse a sua raiva contra as leis patriarcais, mas tenha coragem de dar esse passo para que você tomar de volta o seu lugar enquanto ser humano, e não como uma fantasia que foi construída pelos homens para manter as mulheres em um estado artificial de subalternidade.


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *