Marcha das Vadias: ato feminista ou carnaval queer?

À frente da Marcha, bandeira LGBT nas mãos de um homem. Não se vê, na imagem, bandeira feminista. Créditos da foto: Carla DC

A Marcha das Vadias é um movimento liberal, que defende sistemas de exploração do sexo feminino – como a prostituição e a pornografia – como trabalhos comuns ou até mesmo formas de “empoderamento”, sem um questionamento profundo da dominação dos homens sobre as mulheres na sociedade. Apesar deste caráter, a Macha ainda é uma manifestação que se propõe feminista e contra violências masculinas como assédio e estupro.

Em 2015, a Marcha teve o mesmo tema em todo o Brasil: a legalização do aborto, necessária para preservar a vida das mulheres brasileiras que abortam de maneira clandestina e acabam muitas vezes mortas, encarceradas ou traumatizadas. No entanto, um movimento que se fundamenta em argumentos do liberalismo político, como a Marcha das Vadias, e entende o feminismo não como o Movimento de Libertação da classe das Mulheres, mas como “direito a escolha” (individual) ou “empoderamento” (também individual), não consegue construir um discurso sobre aborto que caminhe para a nossa libertação. Para isso, seria necessário discutir maternidade forçada como trabalho forçado feminino e aborto num contexto maior de direitos reprodutivos necessários para libertação da classe reprodutiva, as mulheres, da dominação masculina que se realiza através de diversos mecanismos, sendo a proibição do aborto apenas um deles, junto com outros mecanismos de controle reprodutivo como a proibição ou restrição do acesso a contraceptivos (países como a Tailândia proíbem, enquanto países como os EUA restringem ao permitir que empresas contratem seguros-saúde que não cobrem contraceptivos, de acordo com a religião do empregador), a gravidez forçada, o aborto forçado, bem como outras violências e explorações, como trabalho doméstico não pago e compulsório, estupro, espancamento, violência psicológica e emocional, assédio sexual, prostituição, pornografia, e tantas outras.

Sabendo disto, a GARRa Feminista se propôs a panfletar uma perspectiva de esquerda, revolucionária, radical sobre o aborto durante a concentração da Marcha das Vadias de Belo Horizonte no dia 20 de junho. Alguns acontecimentos nos chamaram a atenção durante o tempo em que panfletamos.

Carnaval queer

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wlXgLRFga_k&feature=youtu.be]

Como sempre, a Marcha tinha muitos, muitos homens presentes, muitos homens heterossexuais com suas companheiras, mas o que nos chamou a atenção, a princípio, foi a protagonização masculina nas danças e no batuque – que trazia marchinhas de carnaval (!), muitas vezes lesbofóbicas, no lugar de palavras de ordem feministas. Não havia nenhuma bandeira feminista, e a bandeira LGBT era o que roubava a cena, carregada com afinco por um homem de top e saia, com, o que nos pasmou, tinta vermelha entre as pernas. Na mesma marcha em que o cartaz ‘Homens também abortam’ apareceu, um homem gay rebolava até o chão com as marchinhas de carnaval tocando, fantasiado do que só podemos descrever, com muito desgosto, como ‘mulher e aborto clandestino’. Muito além da já misógina prática de usar da estética da nossa opressão (a feminilidade) como fantasia – o drag – este homem achou divertido se fantasiar de mulher morrendo. Um ato feminista pela legalização do aborto e pela vida das mulheres virou uma festinha à fantasia para os homens gays que celebravam “ser vadia”.

Homens não abortam. A proibição do aborto é uma opressão reservada a quem tem útero e vagina, que fazem parte da classe capaz de reproduzir e para a qual os direitos humanos mais básicos são negados: as mulheres. Considerar que homens abortam não significa apenas roubar nosso protagonismo no movimento feminista, mas também negar a opressão que sofremos enquanto mulheres – que tem base material, na exploração dos nossos corpos, dos nossos úteros. Somos forçadas a prosseguir com a gestação, abandonadas pelos pais de nossos filhos, levadas a fazer abortos clandestinos que culminam em sangramentos e hemorragias que podem levar à morte. E mesmo mulheres que não abortam sofrem violência: mulheres cujas tentativas de aborto falharam, mulheres forçadas pelos parceiros a manter a gravidez ou mesmo mulheres coagidas pela ideologia patriarcal, da religião ou da moral patriarcais, a enxergar como errado, como pecado ou imoral interromper uma gestação, correm risco de sofrer violência obstétrica durante o pré-natal e o parto. A maioria dessas questões não foram levantadas na Marcha, que parecia muito mais preparação para uma festa do que um protesto.

O sangue entre as pernas daquele rapaz é um deboche da condição feminina de segundo sexo, da negação de direitos e da invisibilidade de nossas demandas feministas. Falar de aborto é falar de mulher, e um homem carregando o sangue de um aborto entre as pernas é um desserviço político e um desrespeito a todas as mulheres e à causa feminista.

Marcha

Marcha

Mulheres invisíveis

Enquanto panfletávamos, presenciamos uma cena muito forte, bem ao lado de onde estavam as pessoas dançando ao som do batuque da Marcha, uma mulher, aparentemente moradora de rua, era empurrada contra uma árvore por um homem, também morador de rua. Ele a beijava a força, a tocava, enquanto ela tentava se desvencilhar, chorando muito. Tentamos intervir e o homem se tornou agressivo. Conseguimos afastar o homem dela, que foi se deitar longe dali. Foi apenas nessa hora que algumas companheiras se solidarizaram e ajudaram a afastar o homem, que ao perceber que éramos lésbicas, começou a querer nos agarrar e beijar. Ainda assim, se solidarizaram conosco (elas não estavam perto quando o homem assediava a moradora de rua), ao passo que as outras pessoas, que estavam perto quando o assédio ocorria, seguiam dançando as marchinhas e não vendo o que estava acontecendo. Conversamos um pouco com a mulher, que contou alguns detalhes de sua vida e vimos ali que ela estava numa situação extremamente vulnerável, sendo agredida por um homem que tinha conhecido no dia anterior, simplesmente por ter ido dançar junto das outras mulheres que faziam parte da Marcha das Vadias.

Depois de sermos forçadas a nos afastar com as ameaças do homem em questão, tentamos ficar de olho de longe no que acontecia. Enquanto isso, a Marcha seguiu seu caminho. Vimos essa mulher deitada, enquanto o homem a chutava e a balançava, fazendo carinho depois. Eram duas pessoas em situação de rua, extremamente vulneráveis, ambas negras, mas havia claramente ali a opressão masculina sobre aquela mulher.

Quando a Marcha das Vadias surgiu, era sobre o direito da mulher de vestir-se ou portar-se como quiser sem ser culpabilizada caso sofresse violência física, sexual, verbal ou psicológica. Achamos bastante sintomático que, ao lado do batuque dessa Marcha, uma mulher tenha sido agredida e que nada tenha sido feito. A fala desta mulher para o homem que a agrediu foi de quem tentava se justificar: “eu só estava dançando”. A Marcha das Vadias, apesar de defender os direitos dela na teoria, não a protegeu na prática.

Criticamos a falta de atenção e cuidado da organização da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Todo ano presenciamos situações de agressão misógina durante a realização deste evento, e desta vez não houve sequer envolvimento da organização do mesmo. Ficou claro que a Marcha não é um ambiente seguro para mulheres, que elas não estão protegidas, mesmo entre inúmeras feministas e homens que dizem apoiar o feminismo. Faltou olhar para o lado e se preocupar com as outras mulheres, faltou o entendimento de que o feminismo é uma luta coletiva, por todas as mulheres, inclusive as que moram na rua. Faltou uma crítica ao individualismo incorporada nas práticas de quem constrói aquele evento – tanto organização quanto público.

Faixagb

Contra críticas, hostilidade

Presenciamos, também, uma mulher negra discutindo com uma das organizadoras da Marcha, branca, e ambas gritavam. Poucas pessoas pararam para tentar mediar a situação ou dialogar, mas percebemos ali que a companheira negra ressaltava o caráter racista e elitista da Marcha das Vadias. São questionamentos frequentemente levantados nos meios feministas: como a Marcha das Vadias é um movimento majoritariamente branco e classe média, com um discurso de apropriação e ressignificação de ofensas misóginas que não serve às mulheres em geral, mas principalmente às negras e pobres, grupos em situação social mais vulnerável. Em pouco tempo já ouvimos gritos de “cala a sua boca” de parte da mulher branca, tentando agressivamente silenciar as críticas. Essa mesma mulher disse à companheira negra que ela não precisava acompanhar a marcha, que se estava insatisfeita poderia retirar-se.

Esta é uma postura comum de feministas liberais (e fazemos essa análise de que era uma feminista liberal por que estava hostilizando uma mulher para defender um movimento feminista liberal, que é a Marcha das Vadias, de críticas) quando questionadas sobre seus métodos políticos e sobre sua ideologia e como os mesmos se relacionam com a população de mulheres negras e pobres. Vimos ali que as críticas dessas mulheres não eram bem-vindas, e mais que isso, que eram tratadas como ações contrárias ao movimento e, em vez de consideradas, eram rebatidas com hostilidade. Esta é a mesma hostilidade que nós, feministas radicais, especialmente dentre nós as que são negras ou lésbicas, recebemos ao criticar individualismo e liberalismo no movimento feminista, e nesse sentido, nos solidarizamos com a companheira.

Por fim, queremos deixar claro que, para nós, a “libertação sexual” proposta pela Marcha das Vadias não é libertação de modo algum, é apenas mais uma forma de dominação masculina sobre as mulheres e que não acreditamos na ressignificação da palavra “vadia” e seus sinônimos como método efetivo para a libertação das mulheres. Lutamos por um mundo em que as mulheres possam se relacionar livremente, porém com auto-estima, segurança e um real poder sobre seus corpos e mentes, sem, nunca, jamais, serem chamadas – ou sentirem-se – vadias.

GARRa Feminista.

5 Comments

  1. Ingrid Camargo

    O que dizer de um homem branco, barbudo, usando turbante e roupas “femininas” com tinta vermelha entre as pernas “lutando” pelo aborto?
    Ridículo, e ninguém faz nada para acabar com essa palhaçada, infelizmente.

    • Ariane Silva

      Ingrid, é fácil desanimar diante de tanta coisa errada acontecendo, mas o número de feministas que criticam a Marcha das Vadias só cresce! O caminho para retomarmos o feminismo de homens como esse é organizar. Organizadas, unidas, fortes podemos construir críticas que criem consciência nas mulheres, inclusive as que defendem homens como esse, e que confrontem esses homens. A nossa panfletagem e esse texto são esforços nesse sentido, e vamos continuar, junto com outras mulheres, como você, na luta pela libertação das mulheres, contra a invasão masculina no feminismo!

  2. Lívia

    Não sei porquê, isso me lembrou black face. Acha q é assim? Pinta o cu de tinta guache e já entende toda a problemática do aborto.

  3. Claudeth

    A marcha é para mulheres, porquê algumas mulheres se fazem acompanhar dos seus parceiros? Homens agora abortam, que onda de surto psicótico é esse? porquê a inclusão de homens numa marcha para mulheres?

  4. Bárbara Cavalcante

    Olá, gostei muito do texto, o li por duas vezes. Achei-o após buscar por “marcha das vadias” no google. Eu quis procurar o significado e os ideais da marcha porque uma amiga que se diz feminista me chamou pra ir na marcha das vadias aqui do RJ, porém eu me senti mal em pensar que eu estaria na marcha das vadias…. como se eu fosse uma vadia. Eu não sou e não consigo compreender como alguém pode ficar OK em ser chamada de vadia. Entendo que vadia é o termo usado para desmerecer mulheres que se relacionam com muitos homens, e discordo dele. Não há porque desmerecer essas mulheres e não acredito na melhora do significado na palavra vadia. Gostaria de saber onde eu poderia obter mais informações sobre o feminismo radical e se as organizadoras do GARRA tem algum grupo no facebook ou indicam alguma base de fontes para pesquisa.

    Obrigado pelo texto, me ajudou. Sinceramente tenho me sentido triste e sozinha. Amigas que se dizem feministas saem pelas ruas em qualquer passeata sem blusa e com os corpos pintados, mas não sabem responder minhas dúvidas. Ao mesmo tempo não me encontro na linha dessas passeatas, dessas atitudes. Não sei se sou louca, mas quanto mais estudo sobre feminismo mais discordo de algumas atitudes. Parece que muitas vezes queremos provar coisas aos homens que nem nós mesmas temos certeza. Mas eu quero saber que coisas são essas e quero ter certeza.

    Fui criada aprendendo que não devo desagradar meu pai, pois ele pode ficar nervoso e violento. Quando viaja com a família de uma amiga me ensinaram a não desagradar o pai dela, pois ele não gostava. Assim passei por relacionamentos abusivos, buscando sempre não desagradar meus companheiros. Fingi orgasmos, disse sim querendo dizer não, fui a lugares que não queria, fiz coisas que normalmente não faria.

    Até que finalmente senti que eu estava sendo escrava dos absurdos que cresci ouvindo e decidi me libertar. Conhecimento empodera e liberta e é nele que tenho me encontrado. Vejo que fui doutrinada a pensar que mulheres com pouca roupa, que vão a bares ou saem a noite são menos valorosas que mulheres que não fazem essas coisas. Hoje saio a noite, vou a bares e vejo que isso não me faz menos merecedora de nada.

    Foi um desabafo. Mais uma vez obrigado pelo texto e por esse espaço.

    Abraços no coração.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

© 2020

Theme by Anders NorenUp ↑